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No saudoso Nerds Somos Nozes uma vez eu escrevi sobre como Twin Peaks começou a revolucionar a tv americana, que basicamente só produzia séries com episódios fechados, sem a necessidade de acompanhar tudo na ordem. A série criada por David Lynch trazia uma história que se estendia ao longo dos episódios, exigindo mais atenção do espectador. Twin Peaks era maluca demais e acabou cancelada com apenas duas temporadas devido à baixa audiência. De qualquer forma, ela serviu pra mostrar que existia um público para esse tipo de seriado. Assim, no dia 10 de setembro de 1993 (há exatos 20 anos), a Fox americana lançou Arquivo X, uma das melhores séries envolvendo alienígenas e seres sobrenaturais.

Criada por Chris Carter, a série trazia como história principal uma conspiração do governo norte-americano para encobrir a existência de alienígenas e um agente do FBI obstinado em revelar todas as verdades. O agente no caso era Fox Mulder, um cara que viu sua irmã Samantha ser abduzida por alienígenas quando era adolescente e que agora acreditava em tudo. Extremamente inteligente e habilidoso como investigador, ele abandona uma carreira de sucesso para se dedicar ao Arquivo X, um setor do FBI repleto de casos não resolvidos, muitos deles envolvendo algo sobrenatural. Vendo que seu talento está sendo desperdiçado com aqueles casos, os diretores do FBI resolvem colocar a cética agente Dana Scully para trabalhar com Mulder com o objetivo de desacreditar e fechar o Arquivo X. Claro que logo no episódio piloto ela vê coisas que não pode explicar e os dois acabam se tornando parceiros nas bizarras investigações.

O interessante do episódio piloto é que Carter já coloca diversos elementos que seriam importantes para o futuro da série, mesmo que ninguém percebesse isso ainda. Já estavam lá os aliens, as abduções, o governo querendo ferrar o Mulder e um homem que não falava nada, apenas fumava um cigarro, mas que seria o vilão mais odiado da série: o Canceroso. O objetivo de Chris Carter era contar uma história complexa sobre conspiração ao longo de toda a série, mas precisava disfarçar isso com episódios fechados, como era comum na tv da época. Assim, os episódios que envolviam a conspiração alienígena acabaram ficando conhecidos pelos fãs como episódios mitológicos, enquanto os outros eram chamados de monstros da semana.

O primeiro encontro entre Mulder e Scully
O primeiro encontro entre Mulder e Scully

Com essa simples fórmula, a série, que chegou a ser ameaçada de cancelamento ainda no primeiro ano, acabou se tornando um sucesso e se encerrou com nove temporadas. Os atores David Duchovny e Gillian Anderson (desconhecidos na época) acabaram se tornando grandes astros e protagonistas de alguns dos momentos mais marcantes da tv americana. Apesar de contar com excelentes roteiros, não há dúvidas de que a alma da série eram seus dois protagonistas. A começar pelo visual deles, que fugia ao padrão da tv no começo da série. Mulder era um agente do FBI diferente dos outros, com cabelos despenteados e ternos largos. Já Scully era gordinha e em alguns episódios aparecia com roupas que eram cafonas mesmo para a época.

Com o tempo o visual dos dois foi sendo modificado, mas a essência continuava a mesma: ele acreditando em tudo e ela com um ceticismo irritante. Quando um episódio começava era até engraçado ficar imaginando que explicação bizarra Mulder teria para o caso. Aliás, o mais interessante dos casos investigados é que raramente os agentes traziam alguma resposta definitiva para o público. Mulder sempre tinha lá suas teorias absurdas, mas dificilmente se tinha certeza de algo. A diversão toda estava em acompanhar as investigações e torcer para os personagens saírem vivos. Ninguém se preocupava muito com as respostas, a não ser quando elas envolviam a mitologia da série. Entre os casos investigados tudo era possível, desde seres como vampiros e lobisomens até mutantes com poderes malucos e dimensões paralelas (o episódio 4-D, da 9º temporada, é um dos melhores da série). Tudo era possível.

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A partir da segunda temporada, Arquivo X começou a ser o grande sucesso da Fox e, assim como acontece até hoje, a emissora iria tentar esticar a série até um fim melancólico na nona temporada. Até o quinto ano, Carter e seus roteiristas conseguiram criar uma mitologia interessante e com respostas convincentes, mas a partir da sexta temporada começou a ficar claro que estava na hora de acabar enquanto estava no auge. Muitos fãs culpam até a mudança de local das filmagens para o declínio da série. Até a quinta temporada tudo era filmado em Vancouver, que possuía um clima cinzento e combinava com o teor da série. Com a mudança para Los Angeles tudo ficou ensolarado demais e os mais fanáticos dizem que a série perdeu sua alma. Ao fnal do ano sete, finalmente foi revelado o destino de Samantha Mulder em uma belíssima história (que até hoje divide os fãs) e a série perdeu o seu protagonista. Com uma participação menor de Mulder na oitava temporada e a saída definitiva na temporada seguinte, novos personagens foram introduzidos, numa tentativa de continuar o programa sem os dois protagonistas, já que Gillian Anderson também dava sinais de que queria sair.

Anderson continuou até o final, mas era muito mais uma coadjuvante de luxo do que protagonista. Com a queda brusca na audiência, a Fox decidiu que a nona temporada realmente seria o último ano da série, mesmo que tenhamos monstros da semana sensacionais envolvendo os novos agentes John Dogget (Robert Patrick) e Monica Reyes (Annabeth Gish). O episódio final do seriado trouxe Mulder de volta, mas nem isso salvou a história, que tentava amarrar toda a mitologia da série em uma coisa só. Algo praticamente impossível de se fazer, principalmente com todas as modificações que ocorreram nos últimos três anos. Para os fãs, o episódio final devem ter sido as duas horas mais torturantes que já passaram em frente à tv (pra mim foi). Era como ver um amigo querido morrendo lenta e dolorosamente na sua frente. A única coisa realmente interessante do episódio foi descobrir a data da colonização alinígena: 21 de dezembro de 2012.

O elenco da última temporada já sem o agente Mulder

Apesar do triste fim, Arquivo X possui episódios e momentos épicos que fazem com que a série valha a pena até hoje. Impossível não se emocionar com o câncer de Scully ou o reencontro de Mulder com Samantha. Além disso, ela conta com coadjuvantes extremamente interessantes como o diretor-assistente Walter Skinner (Mitch Pileggi), que começou como um obstáculo para os protagonistas e acabou se revelando um importante aliado. Os sempre fiéis Pistoleiros Solitários, tão (ou mais) paranóicos do que Mulder. Entre os vilões, ficaram marcados Alex Krycek (Nicholas Lea), que matou a irmã da Scully e o pai do Mulder, e o Canceroso (Willian B. Davis), um dos grandes líderes da conspiração e que não parou de fumar nem quando precisou fazer isso através de um buraco no pescoço. Arquivo X teve ainda dois filmes, um ambientado entre a quinta e a sexta temporada e outro após o fim da série, com a temática de monstro da semana. É uma pena que um terceiro filme não tenha sido produzido para mostrar o que acontece após a  data da colonização alienígena. Parece que a verdade vai continuar lá fora.

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

1 COMENTÁRIO

  1. estou assistindo novamente a série e é bacana de ver como a perspectiva muda na segunda visita, excelente série até a 5ª temporada que termina com chave de ouro com o filme Fight the Future.

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