Ultimamente tenho feito pesquisa para um livro que estou escrevendo e isso consiste em sair da minha zona de conforto  – o que significa ver filmes, ler livros e quadrinhos e conhecer outras coisas em geral pelas quais eu normalmente não me interessaria. Tudo isso pra explicar que vi um filme sobre a história de “amor” entre uma moça da Inglaterra e um rapaz dos Estados Unidos. Ela viola as regras do visto pra ficar mais tempo com ele e a partir daí é um sobe e desce absolutamente sem sentido que só parece ter o objetivo de entediar o telespectador. Eles enchem de cenas melosas, músicas choronas, bla bla bla, detalhes bobos sobre os dois, etcetera etcetera, bocejos, etcetera. Enfim, é uma história de amor meio impossível por motivos idiotas, que começa no nada e vai a lugar nenhum e não tem final. “Eles ficaram juntos no final?”, o leitor desavisado pode se perguntar. E a resposta é “eu sei lá”. Não dá pra entender direito aquele final e acho que não importa, considerando que a única conclusão que se pode tirar ao fim do filme é que aqueles 90 minutos que eu perdi nele não voltarão nunca mais.

E nisso eu queria ajuda do público-alvo desse tipo de coisa: é sempre assim mesmo? Vocês gostam disso? Se sentem satisfeitos com esse tipo de coisa? É isso mesmo que vocês querem ver? Acho que eu, como alguém que não consome essas coisas normalmente, não sou a melhor pessoa pra avaliar. Não é meu gênero preferido mesmo, em circunstâncias normais ou por prazer, puro entretenimento, sei lá, eu não procuro esse tipo de filme ou livro ou quadrinho. (Aliás, que gênero é esse? Romance? Todos são assim?) Então tanto faz se não me parece fazer sentido, se não me agrada, se ao final eu sou só um amontoado de indignação e incompreensão. Simplesmente tanto faz porque aquilo não foi feito pra pessoas como eu mesmo. O que realmente me deixa, com perdão pelo meu francês, puta da cara é quando colocam esse tipo de coisa sem sentido no meio das coisas que eu consumo por prazer, fazendo com que eu as consuma por engano e fique confusa, frustrada e decepcionada. Foi isso que aconteceu quando terminei de ler Asterios Polyp. Antes de começar a escrever esta resenha, pesquisei outras e cheguei a conclusão de que provavelmente nenhum deles leu a mesma história que eu. Quer dizer, não pode ser que tenham lido.

Asterios Polyp é um arquiteto de origem grega que vive nos Estados Unidos. Em vida intrauterina ele teve um irmão gêmeo, Ignazio, que não resistiu ao parto e, por alguma razão que nunca se explica, narra a história e aparece repetidas vezes, além de causar problemas, conflitos e confusão mental ao gêmeo sobrevivente. Convencido, arrogante e irredutível, Asterios confunde os leitores quando se envolve com a meiga e tímida Hana. Eu poderia passar horas descrevendo detalhes sobre os dois, mas o que realmente importa é que as páginas que dão tais detalhes são belíssimas e cuidadosamente diagramadas. Os desenhos são bem  planejados e sempre interagem com as informações de cada página, em uma perfeita materialização de um potencial até então pouco explorado nos quadrinhos.  Sem falar nas cores e fontes, deixando tudo ainda mais bonito e impressionante. Não foi a toa que David Mazzucchelli, o autor, passou dez anos trabalhando na obra.

Aliás, considerando o roteiro, a linearidade e a comparação entre o ponto de partida e o ponto final, fica evidente que a obra levou muitos anos para ser feita, especialmente por diversas coisas que simplesmente não fazem sentido e detalhes que você passa 200 páginas esperando que te levem a algum lugar, mas que acabam dando em nada. A impressão que fica é que o autor passou tanto tempo trabalhando na parte gráfica que simplesmente esqueceu o que queria dizer com a história, fazendo com que ela fosse a lugar nenhum, ou pior, um lugar bem ruim, desperdiçando personagens ótimos e uma arte impressionante no processo.

Considero também que eu tenha elevado muito minhas expectativas. Esperei muito tempo pra ler, li muitas resenhas que rasgavam elogios e aumentaram minhas expectativas mais ainda (embora nenhuma entrasse em detalhes específicos da história, o que despertava ainda mais minha curiosidade). Sem falar que Asterios Polyp foi eleita a melhor obra em quadrinhos de 2009, seu ano de lançamento nos Estados Unidos, tendo também sido vencedora do Eisner Award, também conhecido como o “Oscar dos quadrinhos”, em diversas categorias em 2010. Então o que passava pela minha cabeça quando terminei de ler foi uma grande decepção pois, resumidamente, Asterios Polyp era uma obra que disfarçava muito, com detalhes que impressionam e distraem, para simplesmente contar uma história de amor meio impossível por motivos idiotas, que começa no nada e vai a lugar nenhum, com um final ainda mais decepcionante e sem sentido do que a simples ausência de conclusão.

Há também o lado de que Asterios percebe que estava o tempo todo sendo um grande filho da puta com a ex-esposa (e com todo mundo), apesar de levar um incêndio, uma enxurrada e uns bons chutes no que ele conhecia como sua vida até então para perceber a evidente verdade e procurar se redimir. Claro que assim de modo resumido tudo parece muito mais bobo e leviano do que quando você está perdido naquelas páginas bonitas e naqueles detalhes cheios de distração que todas as páginas te proporcionam. Mas não vou mentir pra vocês, amiguinhos, no final a decepção é a mesma:  outra obra premiada e superestimada devido a uma arte que só parece servir pra disfarçar apenas mais um roteiro vazio.

Asterios Polyp (Quadrinhos na Cia. – Edição especial, 2011)

Autor: David Mazzucchelli

Páginas: 344

Nota: 5

Ouça o podcast que o Pipoca e Nanquim fez sobre a obra

E também leia a crítica que o Bruno Zago fez por lá!

Compre, leia e tire suas próprias conclusões!!!

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Jornalista formada, produzo e consumo literatura, quadrinhos e música.

2 COMENTÁRIOS

  1. Concordo, Kiara.
    Também achei a obra um pouco superestimada sem contar vários recursos gráficos como as fontes diferentes para cada personagem que já haviam sido usados décadas antes por Bill Sienkiewicz em “Elektra Assassina” o que não foi comentado por ninguém.

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