Only God Forgives_posterApós o muito bem sucedido Drive, Nicolas Winding Refn oferece uma ousada forma de se fazer cinema, que desafia exageradamente a aceitação de todos. 

Only God Forgives possui um conceito complexo, que mistura cultura Tailandesa, violência, sexo, e também uma linguagem artística contemplativa, que explora uma beleza torpe proveniente da desestabilidade emocional de seus personagens – profundamente afetados por um passado de crimes hediondos e relações conflituosas.

A história narra o complicado cenário em que se encontra o traficante Julian (Ryan Gosling), que após ter seu irmão morto – basicamente pelas mãos de Chang, chefe da polícia de Bangkok (Vithaya Pansringarm) -, começa a ser psicologicamente pressionado pela mãe, Crystal (interpretada de forma brilhante por Kristin Scott Thomas), que exige a cabeça do responsável pela morte de seu primogênito “em uma bandeja”.

O plote é na verdade um pretexto para que o roteiro de Nicolas Winding Refn explore a estranhíssima relação de Crystal com seus filhos. Mas o argumento reflete, principalmente, sobre as questões morais de indivíduos prestes a perder a própria humanidade devido as atrocidades que os moldaram. Basicamente, o autor busca encontrar o certo em algo muito, muito errado. Fatidicamente, este certo também será errado.

only-god-forgive1s

As qualidades técnicas que fizeram de Refn um diretor a ser admirado, aqui se renovam – quase que por uma obrigação autoral imposta por ele mesmo. Sua concepção de iluminação é fantástica, sendo inspirada pelas fortes cores de lâmpadas baratas que tomam conta das periferias – a capital Bangkok é um dos exemplos mais gritantes desse costume.

A todo momento vemos os personagens recortados por feixes de luzes vermelhas ou amarelas, que invadem as cenas por muros vazados. Composições visualmente arrasadoras, que se tornam ainda mais contundentes com enquadramentos milimetricamente planejados – uma ambientação imersiva, um trabalho impecável. A trilha sonora de Cliff Martinez, colaborador do diretor, segue pela mesma linha eclética oitentista e eletrônica de Drive, isso quando os personagens não estão cantando “clássicos” da música Tailandesa.

Mas como foi dito no início, Only God Forgives é um filme que desafia até mesmo os mais receptivos apreciadores da sétima arte. No primeiro ato tudo segue bem. A lentidão do andamento é recebida com certa estranheza, mas até ali, diante da elaboração da trama, existe uma fluidez de sentimentos que sustenta a ousada proposta. Mas quando tudo se apóia, única e exclusivamente, na dúvida de Julian, o filme congela. O clima contemplativo se torna incômodo, um anticlímax exagerado e sem propósito aparente.

Com a isso, a construção e desenvolvimento das cenas perdem o impacto necessário para manter a história pulsando. Em certo momento, frente a uma obviedade monstruosa, do quão caricata certa cena se torna, fica a impressão de que Refn (que apesar de novo, já é um experiente profissional) decidiu disseminar aquele sentimento em específico, propositalmente. Algo errado, dissonante, desafinado. Ele escolheu desafiar a todos, talvez até a si mesmo.

only-god-forgives

É claro que esta escolha teve seu preço, mas fez do filme algo memorável, para o bem ou para o mal. O clima mórbido, que ganha mais força no desfecho, simplesmente extirpa qualquer resquício de emoção que ainda se arrastava pela história. Essa ausência de sentimentos é principalmente alicerçada pela interpretação de Gosling.

O personagem do ator apresenta certa profundidade, mas nada é abertamente explanado. A relação dele com a acompanhante Mai (Yayaying Rhatha Phongam) sugere que o mesmo possuiu algumas perturbações sexuais, claramente provenientes de sua relação com a mãe. Mesmo sendo um homem perigoso, existe nele uma crescente inquietação que questiona “o que é certo afinal?”. E este é o grande tema explorado em Only God Forgives. A obra faz de um traficante perturbado o herói do filme, e do policial justiceiro o vilão, mas esta inversão moral de papéis não influencia (em termos narrativos) os valores universais de certo e errado que conduzem os personagens, sendo o resultado deste conflito algo inesperadamente coeso.

Em resumo:

Only God Forgives é uma fita distinta, que quando analisada por critérios básicos será tida como falha, exaustiva e pretensiosa. No entanto, as qualidades técnicas de Refn fazem da mesma algo esteticamente relevante, e sua história opta por caminhos autorais quase nunca trilhados por fitas com um pé em Hollywood, e isso é bem interessante.

Existem falhas, exageros. Existem acertos. No final, a experiência como um todo pode ser considerada negativa, mas esta é uma interpretação instintiva, estranhamente obrigatória. Só que talvez a obra busque ser lembrada de uma forma menos óbvia. E será.

only-god-forgives09

setas

Mais críticas como essa você encontra no Crítica Daquele Filme

 

Comente pelo Facebook

Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

ARTIGOS SEMELHANTES

SEM COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta