Leia a parte 01: Diário de um antropologo numa ecovila

Leia a parte 02: Diário de um antropólogo numa ecovila

Leia a parte 03: Mito e realidade da criação de Itapeba

Leia a parte 04: Ritual da ~Amizade~

Leia a parte 05: Convite para ação

Leia a parte 06: Minha apresentação à comunidade

Leia a parte 07: Dialética sujeito/objeto em cheque

 

Após superar os obstáculos da rodovia BR-030 e encarar a travessia do Rio de Contas na pequena embarcação, consegui finalmente chegar a Itapeba. A jornada do aeroporto de Ilhéus até a ecovila levou cerca de três horas. Exausto, me instalei com a família numa casa que alugamos.

Conforme fui encontrando moradores e me apresentando, percebi que nenhum deles sabia da minha vinda nem tinha ideia que alguém viria à ecovila para realizar uma pesquisa de mestrado. Isso me deixou um pouco preocupado e apreensivo, pois eu havia endereçado uma correspondência oficial da Universidade Federal de Santa Catarina, assinada por meu orientador, solicitando à comunidade permissão para realizar a observação participante, e havia recebido uma resposta positiva através do email oficial de Itapeba. O fato da informação não ter circulado pela ecovila me deixou apreensivo, pois eu não sabia como os moradores poderiam reagir.

Alguns dias depois, fui convidado a participar de uma reunião de apresentação de Itapeba para as pessoas novas. Esse espaço foi criado para que os moradores de Itapeba apresentem a ecovila e a comunidade para os recém-chegados. Além disso, é a ocasião indicada para que as pessoas façam qualquer pergunta aos moradores. A reunião aconteceu na Oca Grande (ilustrada na figura do início desse artigo), um espaço de 150 m² de formato arredondado e piso de madeira, sem paredes, de frente para o encontro do Rio Itapeba com o mar. A Oca Grande é um espaço para eventos e trabalhos espirituais.

A reunião foi conduzida por Cristina Oliveira, portuguesa, uma das fundadoras da ecovila. Havia 8 moradores antigos e dois casais recém chegados, incluindo eu e minha esposa. Todos estavam sentados no chão, em colchonetes, e dispostos em círculo.

Cristina não ficou satisfeita com a ausência de muitos moradores e alguns recém chegados, e solicitou que essas pessoas fossem chamadas para participar. Depois desse pequeno desconforto, a reunião começou com quase uma hora de atraso, mas o quórum não aumentou muito. A anfitriã propôs que os moradores da ecovila apresentassem o projeto para os recém chegados e, num segundo momento, abrir para perguntas. A primeira a falar foi Joana, aquela que no final da minha estadia faria minha leitura de aura:

Para os que chegam a Itapeba, é importante saber que aqui é um lugar de muito aprendizado que trás muitas bênçãos e muitos desafios. Aquelas pessoas que estão na busca pelo crescimento pessoal terão essa evolução acelerada. Aqueles que não tem intenção de evoluir acabam encarando muitas questões pessoais.
Quem está aqui há mais tempo está mais acostumado com os processos que acontecem. Nós somos seus amigos, estamos disponíveis pra ajudar a lidar com questões emocionais, de falta de confiança ou pra entender quem é quem e o que se passa aqui dentro. Vocês sempre tem amigos pra pedir ajuda, pra desabafar. É um lugar que catalisa transformações interiores e mostra onde cada um precisa evoluir (Joana).

Depois de Joana, foi a vez de Vitor, fotógrafo e voluntário do Centro:

Quando eu cheguei em Itapeba eu tive a possibilidade de alcançar meu potencial máximo como ser humano, vejo isso acontecendo comigo e com outras pessoas. Pela liberdade de expressão que temos aqui, fora de um sistema que limita nossa forma de expressão. Pelo apoio que a gente tem das pessoas, enquanto comunidade. É um lugar que possibilita que a gente realize todos os nossos sonhos e nosso potencial como ser humano.

Tenho a sensação de estar vivendo no Paraíso, muito realizado.

As pessoas que estão chegando também percebem isso e nós moradores ajudamos essas pessoas a se encontrarem nesse caminho. No início havia mais dificuldade pois haviam poucas pessoas morando, mas agora que há um grupo grande, com uma mesma visão, está cada vez mais fácil.
Estamos vivendo um momento na comunidade lindo e incrível: as pessoas estão chegando, estão se alinhando com a visão de Itapeba, encontrando seu espaço e fazendo o que querem fazer. Vocês estão num lugar onde vocês tem toda a liberdade para se expressar e para ser realmente quem vocês são (Vitor).

Depois de Vitor, mais alguns moradores falaram sobre as iniciativas da casa de parto e da escola livre. A última a falar foi Cristina:

Nós todos estamos cada vez mais unidos e confiando cada vez mais uns nos outros, cada um completa um espaço, e que as pessoas que chegam contribuindo uns com os outros para que cada um descubra seus sonhos e sua paixão.

Quando uma pessoa chega aqui deve respeitar aquilo que já está acontecendo. Itapeba é o que é porque há pessoas que estão trabalhando aqui, dando muito de si, do seu amor, da sua vida, para criar tudo isso.

Muitas pessoas vem aqui, chegam, adoram, depois disso vem viver aqui. E depois começam a mudar um pouco, começam a questionar, começam a exigir, começam a suspeitar e isso cria muito desequilíbrio e cansaço pra nós. E isso continua acontecendo até os dias de hoje.

É importante respeitar o grupo. Se vier para ajudar, eu e todo o grupo agradecemos. É muito cansativo pra nós receber “está tudo errado, tem que mudar, que nós não ouvimos ninguém”. Fomos nós que fizemos.

Há pessoas que moram aqui há muito anos e que já não vem mais a reuniões. Porque se cansaram. As pessoas chegam, nós ajudamos. Damos lençóis, damos toalhas, damos casa, ajudamos muito. As pessoas ficam alguns meses, depois vão embora, às vezes sem nem dizer Adeus.

Muitos não têm mais paciência pra isso. Por isso, muitas pessoas que estão aqui há muito tempo não vem mais, não participam.

As pessoas que vem aqui são muito lindas, querem ajudar, contribuir, compartilhar, nos conhecer. Mas estamos aqui há muitos anos, vemos muitas pessoas passarem por aqui.
Há pessoas que chegam aqui e nunca mais vão embora. Mas Itapeba não quer nada com essas pessoas. E há outras que Itapeba quer. A seleção é natural. Se Itapeba quer, está além de todos nós.

Itapeba foi criada com uma visão espiritual, para criar um novo mundo. Há um propósito do Espírito que Guia e esse é nosso compromisso. Não seguimos nenhum mestre espiritual específico, não há só uma visão, nem um só um trabalho, todos eles contribuem. Santo Daime, Reiki, Diksha, Leitura de Aura, Osho. É tudo uma opção. Nenhum de nós é santo, ninguém sabe mais do que ninguém. Mas essas práticas se estendem a tudo que fazemos (Cristina).

Após a apresentação dos moradores, Cristina abriu para perguntas. Uma pessoa questionou como começou Itapeba. Foi assim que fiquei sabendo de uma história que já faz parte do imaginário da ecovila: seu mito de fundação.

A primeira vez que eu e o Johann Ditrich [marido de Cristina, holandês] viemos a Itapeba, chegamos num barquinho, pelo mar, vindos de Itacaré. Não havia estrada. A embarcação não podia vir até a praia, então tivemos que pular do barco e vir nadando até a praia. E quando chegamos à praia, estávamos entre o mar e o rio. Olhamos para Itapeba e eu comecei a chorar muito.

Johann me perguntou “O que aconteceu, por que você está chorando?” e eu não conseguia responder, não conseguia parar de chorar. Eu sabia que o lugar era o lugar dos meus sonhos. Eu já havia sonhado com Itapeba há muitos anos atrás. Mas não Itapeba como era quando eu cheguei, mas como é hoje.

Quando chegamos era tudo mato aqui, não tinha nada. Não era possível andar por aqui. Havia uma casinha com um senhor de 37 anos que cuidava da fazenda de coco. Ele tinha uma arma e achava que vivia no tempo dos coronéis, queria matar todo mundo, achando que queríamos roubar cocos. Eu tinha acabado de chegar da Europa. Era totalmente selva. Era algo saído daqueles romances de Jorge Amado sobre a região, Gabriela, Cravo e Canela, como era lá no tempo dos coronéis.

Depois voltamos a Portugal. Quando nossos amigos souberam nos chamaram de loucos. Nós viemos com barracas e acampávamos. As pessoas achavam que nós realmente éramos loucos.
Tivemos que fazer a estrada, construir uma ponte. No início eram dois troncos e o carro tinha que passar exatamente por cima, tudo balançava (Cristina).

Depois de terminar essa narrativa, outras pessoas fizeram perguntas, pedindo mais esclarecimentos sobre a formação da empresa, a compra do terreno, etc. Assim, a conversa mudou um pouco de rumo, saindo do reino puramente simbólico e fornecendo muitas informações que contribuíram para meu entendimento sobre o contexto em que estava me inserido.

Cristina Oliveira é especializada em duas terapias de cunho espiritual: o Reiki Essencial, que ela aprendeu com a fundadora do método Diana Stein; e a Leitura de Aura, criada pelo professor espiritual Michael Fikares. Além de praticar e ensinar essas técnicas, ela também é versada em outras tradições xamânicas, atua como médium que recebe espíritos ancestrais e também interpreta sonhos. Johann Ditrich é um self-made man holandês. Empresário que atuava no ramo imobiliário, ele construiu seu patrimônio por mérito próprio.

Juntos, Johann e Cristina eram co-fundadores de um famoso centro que promove cursos e retiros espirituais, o Monte Borboleta, no sul de Portugal. Depois de alguns anos atuando nesse centro, o casal percebeu que muitos dos frequentadores do centro não incorporavam as transformações que passavam nesse ambiente para suas vidas cotidianas, quando voltavam para suas casas e suas rotinas. Eles entenderam que, para provocar uma mudança mais profunda nas pessoas e promover a cura espiritual do planeta, era necessário dar um passo além. Eles tentaram criar uma comunidade em torno do Monte Borboleta com amigos próximos, mas enfrentaram muitas dificuldades e o projeto não deu certo.

Assim, eles decidiram viajar pelo mundo em busca do lugar ideal para criar essa comunidade que sonhavam. Passaram pela Costa Rica, país que se destaca por suas construções ecológicas e compromisso ambiental, mas o custo de vida e o preço dos terrenos não eram favoráveis para o projeto de Johann e Cristina. Resolveram então vir para o Brasil, onde, inicialmente, foram atraídos pela região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

Inspirados pelas diversas comunidades alternativas existentes na região, eles adquiriram um terreno de 150 hectares próximo à entrada do Parque Nacional, na vila de São Jorge. Mas eles não ficaram satisfeitos e continuaram sua procura até chegar a Itacaré, conhecer Itapeba e terem certeza que haviam encontrado o lugar ideal.

Quando nós chegamos aqui, queríamos fazer uma comunidade. Só que Itapeba era um terreno muito caro. Não me lembro quanto custou em Reais, mas me lembro que era muito dinheiro, e que nós não tínhamos.

Voltamos a Portugal e perguntamos a nossos amigos quem é que queria investir dinheiro conosco aqui no Brasil para criarmos um Centro de Desenvolvimento Humano, uma comunidade e uma escola.

Encontramos várias pessoas, algumas delas nós não conhecíamos, que gostaram da ideia e queriam investir no nosso projeto. Formamos um grupo de seis pessoas. Johann e eu entramos com uma cota cada. Além de nós, o grupo era composto por:

Harold um norte-americano, amigo próximo há pelo menos dez anos cujo sonho também era criar um Centro.

Gerard, francês, amigo nosso há mais de vinte anos. Viveu conosco em Portugal, éramos muito amigos mesmo. Ele entrou junto com um amigo seu, chamado George, dividindo uma cota.

Manoel, português, uma pessoa que tem muito dinheiro e acreditava muito no que estávamos propondo. Ele não tinha intenção de vir pra cá, mas acreditava no projeto.

Tania, uma holandesa que nenhum dos quatro conhecia. Ela visitava nosso Centro Borboleta em Portugal 2 vezes por ano. Quando ela soube do nosso projeto, disse que tinha interesse em vir morar no Brasil. Nessa época ela tinha bastante dinheiro e quis investir.

Cada um de nós investiu € 75.000. Esse dinheiro todo foi para comprar o terreno de 97 hectares e pagar as taxas. Ninguém mais tinha dinheiro depois disso. A proposta era cada um entrar com mais € 25.000 numa segunda etapa para investir em infraestrutura, mas nenhum de nós conseguiu esse dinheiro.

Apenas eu e o Johann tínhamos condições de vir morar no Brasil naquele momento. Ficou combinado que os outros sócios viriam quando pudesse. Os únicos que queriam realmente vir eram o Gerard e o Harold. Ficou acertado que, enquanto nenhum dos outros sócios viesse morar em Itapeba, Johann e eu iríamos administrar o empreendimento. Nós nos vimos com um imenso desafio: como nós íamos levantar recursos para construir a ecovila?

Eu e o Johann criamos então um projeto que era fazer a ecovila, fazer um condomínio de 28 lotes. Nosso plano era vender para pessoas que quisessem participar desse projeto. Não colocamos nenhum objetivo imobiliário. Esses lotes foram comprados por amigos e conhecidos dos sócios.

Nós propusemos aos outros sócios que iríamos devolver o valor que haviam investido em um prazo de 5 a 7 anos, e que esse retorno poderia vir na forma de lotes ou em dinheiro ou uma combinação dos dois. Isso foi no ano de 2005. Ao longo desses anos, 26 lotes foram vendidos para amigos nossos e dos outros sócios. Todo o dinheiro da venda dos lotes foi empregado para investir na estrutura para construir o Centro e para sustentar o Centro até que começasse a gerar recursos, conforme foi acordado com os sócios (Cristina).Sob o ponto de vista formal, há na ecovila Itapeba duas empresas legalmente constituídas: o Centro de Desenvolvimento Humano (CUDS) e a Itapeba Ecovillage – essa segunda foi criada para facilitar o processo de residência de estrangeiros no país, não desempenhando nenhuma atividade produtiva. Além disso, existem ainda duas organizações não formalizadas legalmente, mas atuantes: a escola livre Ankara e a Casa de Nascimento. Não existe nenhuma entidade, legalizada ou não, que atue como fórum comum a todos os moradores.

O Centro é de fato a única organização produtiva legalmente constituída na ecovila com a finalidade de gerar renda e obter lucro, e é composto por um restaurante vegetariano, uma pousada e espaços para abrigar workshops, conferências, casamentos espirituais, eventos, seminários para grupos e retiros individuais. Alguns são organizados pelo próprio Centro, enquanto outros são realizados por terceiros que usufruem da estrutura.

A pousada comporta até 80 pessoas e dispõe de quartos individuais e coletivos. O restaurante self-service oferece apenas opções vegetarianas. O preço da refeição é R$ 17 e a diária mínima é de R$ 100 para um quarto coletivo. O público da pousada não é exclusivamente de participantes dos eventos, mas também composto por turistas de todos os lugares do mundo, em sua maioria pessoas de classe média e alta, dado as altas tarifas praticadas.

Há diversos espaços de trabalho, como a Oca Grande, a Oca Pequena (75 m²) e três salas de terapias, com 45 m², de frente para o rio e a praia. Existe uma biblioteca com poucos livros e apostilas de assuntos variados como espiritualidade, religiões, permacultura e romances em diversas línguas. Mas a essa é raramente usada para seu propósito, servindo mais como depósito e sala de terapia.

Há uma lojinha ao lado do restaurante, que está fechada na maioria das vezes, sendo aberta apenas quando há grandes grupos de turistas e visitantes. A loja vende alguns produtos feitos na região, camisetas e eco bags com a estampa da ecovila e bijuterias e artesanato.

Há uma sauna à lenha que é usada regularmente. A internet wi-fi é disponibilizada, mas sua velocidade é extremamente lenta. Supostamente, seria uma conexão de 600kbps dividida por toda a comunidade e a empresa. Isso chega a ser um incentivo para que os visitantes vindos de cidades grandes e acostumados com conexões mais rápidas abandonem seus aparelhos eletrônicos por alguns dias e vivenciem experiências que não poderiam ter em suas casas.

O Centro possui também uma horta orgânica com uma pequena variedade de folhas verdes. Na mesma área, estão sendo implantadas algumas ilhas agroflorestais para recuperar a mata nativa e produzir alimentos. O projeto é liderado por Bender, filho de Cristina e Johann.

São promovidos cursos nos três níveis da leitura de aura em inglês e português, ministrados por Cristina Oliveira, que também conduz um tipo de retiro conhecido como 21 dias de viver de luz, processo que habilitaria a pessoa a viver de luz e sucos diluídos em água se assim desejar. Também acontecem retiros de yoga, capoeira, dança e cura, neobalancing, xamanismo, retiros de interpretação de sonhos, encontros de parteiras tradicionais, entre muitos outros.

Ao menos pela maneira como é apresentado, o CUDS parecia ser uma empresa que exemplifica como a economia pode acontecer sem necessariamente interferir com os fins da ecovila como um todo.

Mas à medida que a conversa com Cristina evoluía, as contradições começaram a surgir:

Em 2010 nós devolvemos todo o investimento ao sócio. Todos quiseram ficar com terrenos ao invés de receber dinheiro. Cada um tem um terreno que vale € 50.000 e que pode ser vendido a qualquer momento. Devolvemos ainda € 25.000 em espécie no ano passado para cada sócio, excetuando eu e Johann que tivemos que receber tudo em terreno pois não havia mais dinheiro. O Centro fechou o ano de 2010 com prejuízo de R$ 80.000 para os sócios receberem esse dinheiro.

Até o ano passado [2010], nenhum dos sócios que estava na Europa quis saber de Itapeba. Harold vinha sempre uma ou duas vezes por ano para ficar pouco tempo, o Gerard vinha para passar alguns períodos mais longos e a Tania, o Manoel e o George quase nunca vieram, e quando vem, não ficam mais de 3 dias. Nunca mais deram dinheiro nem fizeram absolutamente nada nem quiseram saber nada do que estava acontecendo nem sobre o nosso trabalho.

No o ano passado [quando o projeto completou 5 anos de sua criação], Kayra [namorada de Gerard] e Tania começaram a criar muitos problemas e dizer que, agora, que tudo está feito, a empresa vale muito dinheiro. Organizados pela Kayra e pela Tania, de repente, sem mais nem menos, todos os sócios se uniram sem falar comigo ou com o Johann, decidindo que Itapeba vale milhões e querendo vender o CUDS, não Itapeba, pois lá cada pessoa e dona do seu lote, mas sim vender o Centro, incluindo a área de frente para a praia e a reserva ecológica de 75 hectares. Eles queriam ficar milionários.

E aí começou uma guerra. Eu e o Johann nunca vamos vender nada. Absolutamente nada porque nunca foi essa a intenção. A intenção nunca foi vender nada. A intenção foi criar um Centro de Desenvolvimento Humano e uma comunidade. Então nós dissemos que não iríamos vender nada.

Como nós temos procurações de todos os sócios em que eles nos cederam o direito de decidir e administrar a ecovila, então eles não decidem nada, se querem ou não vender o CUDS. Quem decide somos eu e o Johann.

A Kayra e a Tania ficaram furiosas. Nós conversamos com o Manoel e propusemos de transformar o Centro numa fundação, em que cada sócio daria sua parte, porque todo mundo já recebeu aqueles € 75.000.

Fomos a Portugal e conseguimos fechar um acordo entre o Manoel, Harold, Johann e eu. A Tania e o Gerard nunca concordaram. Mas quando voltamos ao Brasil, ficamos sabendo que eles haviam feito uma reunião entre eles e, novamente, apenas eu e o Johann queríamos criar a fundação, enquanto os outros discordavam.

Atualmente, eu e o Johann estamos dispostos a dar a nossa parte e criar essa organização sem fins lucrativos. Então nós resolvemos perguntar a eles quanto eles queriam para vender as suas partes. Afinal, eles nunca fizeram parte de Itapeba, e há pessoas aqui que estão dispostas a contribuir e participar. Eles disseram que queriam vender a empresa por € 500.000.000 (Quinhentos milhões de euros)!

Eu e o Johann temos 33% das cotas e nós nunca vamos vender. Itapeba tem uma comunidade e nós nunca poderemos vendê-la. Além da empresa, tem muitas pessoas aqui e ninguém pode vender isso.

Nós propusemos para eles que pensassem em preços razoáveis. Harold decidiu que não quer vender, quer continuar e quer vir morar aqui, quer construir a casa dele aqui. O Manoel quer vender, mas não tem pressa. A Tania e o Gerard querem vender por muitos milhões.

A Tania é uma pessoa difícil de conversar. Ela é desequilibrada, emocionalmente e não tem respeito por nada, ela nunca fez absolutamente nada aqui. Eles receberam 75 mil, o que sempre esteve combinado. A Tania tem 2 terrenos, além do que foi dado, um que ela comprou.

Ela sempre vem aqui e fica falando a todos de coisas que não são verdade, falando dos 5 milhões dela. Os 5 milhões que ela fala são referentes à venda dos terrenos. Esses terrenos realmente foram vendidos. Os primeiros lotes foram vendidos por € 35.000 e depois, passaram a valer entre € 50.000 e € 75.000. Todo esse dinheiro foi investido para construir o Centro, comprar os carros, pagar os salários nos últimos anos. Pois até hoje, o Centro nunca foi autônomo. Muito do dinheiro que entrou, saiu. Acreditamos que agora, em 2011, vamos conseguir nos tornar independentes financeiramente, gerar os recursos financeiros suficientes para manter a empresa.

Nós queremos criar uma cooperativa em que 50% das receitas ficassem para a cooperativa e o restante para pagar os sócios. Eles também não concordam com a cooperativa.

A situação é essa: tem um conflito entre nós. Minha consciência está limpa. Eu fiz meu melhor. E só o tempo vai poder resolver essa confusão. Porque ou eles vão ter que vender em condições razoáveis, e há pessoas aqui que querem comprar, ou então vão continuar donos do CUDS, mas não vão poder participar diretamente. A não ser que venham pra cá e concordem com tudo que está acontecendo aqui. Eu não estou disposta a mudar absolutamente nada.

Essa história já tem quase um ano e meio.

É importante não confundir as duas empresas, o CUDS e a Ecovillage Itapeba. A Ecovillage Itapeba é uma empresa que criamos para poder vender os lotes para estrangeiros e facilitar o processo de residência deles no Brasil. Cada pessoa que comprou um lote na Ecovila tem uma cota da empresa.

A Fazenda Itapeba originalmente tinha mais dois pedaços de terreno, além daquele que compramos no início. Um era de um amigo do Harold que comprou na mesma época que a gente, mas quis ficar com seu terreno de 2 hectares sozinho e separado de Itapeba. Só que ele desistiu e o Johann e eu decidimos comprar dele esse terreno depois de alguns anos.

Nenhum dos sócios quis comprar, então nós compramos com o nosso dinheiro e dividimos esse terreno em pequenos lotes para a comunidade poder se formar. Porque os lotes da Itapeba Ecovillage Condominium [que passou a ser chamada de Ecovila 1, enquanto essa nova faixa é conhecida como Ecovila 2] eram muito grandes e muito caros. Nós vendemos esses novos lotes para pessoas que não podiam pagar, e muitos desses estão quitando aos poucos seus terrenos, em prestações de R$ 50 ou R$ 100 por mês. Vão pagar em 20, 30, 40 anos, o quanto puderem e quando puderem. Com o dinheiro de alguns desses lotes que foram vendidos integralmente, nós construímos a escola. Então nós não tivemos lucro, todo o dinheiro que entrou foi usado para montar a escola e ainda tivemos que colocar algum dinheiro nosso, porque muitos desses terrenos ainda estão sendo pagos em pequenas prestações.

A terceira faixa de terreno [conhecida como Ecovila 3], nós queríamos comprar mas o dono, que era um irmão do dono da área que nós já tínhamos comprado, não queria vender. Depois queria vender, mas queria muito dinheiro, e nós não tínhamos esse dinheiro pra pagar. Até que um dia nós fomos obrigados a comprar.
Pois o Olivier [francês, dono de uma casa em Itapeba e que também se desentendeu com Cristina e Johann] queria comprar esse terreno e fazer um resort para franceses sem nos dizer absolutamente nada. A proposta dele era fazer uma colônia de franceses iguais a ele.

E aí nós fomos obrigados a comprar. Falamos com diversos amigos que ainda confiam em nós e conseguimos levantar esse recurso da noite para o dia para evitar que Olivier acabasse com Itapeba com sua ideia. Cinco amigos compraram junto com a gente, e nossa proposta para eles foi devolver todo o dinheiro de volta. Tivemos 5% de lucro na venda desses terrenos que foi doado para projetos sociais de Itapeba e da Casa de Bonecos.

A maior parte desse dinheiro já foi pago aos sócios, mas alguns lotes também foram vendidos em parcelas pequenas e vão ser pagos em etapas. Também criamos a casa das crianças e a casa de nascimento, além de ajudar a Casa dos Bonecos a criar seu Quilombo D’Oiti.

Essa é a nossa realidade (Cristina).

Mapa da Ecovila Itapeba que mostra as áreas Ecovila 1, 2 e 3
Mapa da Ecovila Itapeba (imagem: cortesia da minha cunhada Rakel Gomez)

Algumas coisas me chamaram muito atenção ao longo dessa reunião. A dimensão simbólica é um aspecto que salta aos olhos, estando em evidência em todas as falas e até na disposição da Oca Grande. Mas foi interessante ver como a conversa passou de um grau altamente simbólico da narrativa do mito da criação de Itapeba para uma prestação de contas recheada de conflitos de cunho econômico e utilitarista.

Percebi também que o termo CUDS era empregado para se referir à empresa apenas no contexto da sociedade e dos conflitos que vieram à tona, enquanto Centro parece se referir tanto ao local físico quanto à empresa no contexto dos moradores da ecovila.

A presença de conflitos é algo marcante, e esse conflito está diretamente ligado à questões econômicas e simbólicas simultaneamente. Aparentemente, há um amálgama entre a empresa CUDS/Centro e a Ecovila. No discurso de Cristina Oliveira, Itapeba e o Centro pareciam se fundir, algo que pude observar em diversas ocasiões informais com outros moradores. Os objetivos da empresa e da ecovila também parecem se confundir em diversos momentos. Mas a essa altura seria difícil tecer qualquer parecer, tendo em vista que só conhecia uma versão da história.

Um fato que também gerou em mim alguns questionamentos foi que tanto a reserva ecológica de 75 hectares quanto a frente da praia pertencem à empresa. A falta de clareza e separação entre as atividades econômicas e não-econômicas e o conflito entre os sócios da empresa representam um grande risco para os moradores e proprietários dos lotes, pois eles não possuem o mínimo controle sobre as atividades que essa organização desempenha.

Impressionou-me também a franqueza com que todos pareciam falar, especialmente tendo em vista que sabiam que eu estava gravando a conversa, assim como gravaria muitos outros encontros e reuniões dali para frente.

Em todas as ocasiões, eu perguntava se poderia gravar as conversas e ninguém nunca se opunha. Em diversas ocasiões formais e informais, perguntei aos moradores se eles gostariam que eu ocultasse o nome da ecovila e, em nenhum momento, alguém se manifestou a esse respeito.

A opção por ocultar o nome da ecovila foi minha, no momento da análise, para poupar os membros da comunidade da superexposição e me sentir mais a vontade para tecer críticas e análises sistemáticas sem correr o risco de ofender ninguém nem causar danos à imagem da comunidade.

E assim, encerro a terceira parte do meu relato.

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