Sim, este filme já foi citado no post sobre os filmes mais insanos, mas só esses dias eu resolvi assistir e acho que vale a pena falar mais um pouco sobre ele. Funny Games não é um filme fácil, não é uma daquelas histórias que você sai satisfeito depois de ter assistido. Basicamente, o filme se concentra em mostrar dois adolescentes malucos torturando uma família inocente. Filmes de tortura, como O Albergue ou a série Jogos Mortais, são comuns, mas geralmente nestes filmes os vilões se dão mal no final, ou os torturados possuem seus próprios pecados. Mas em Funny Games a família não fez nada de errado, nem mesmo um simples adultério é cometido, e (ATENÇÃO PARA OS SPOILERS) os torturadores se dão bem no final. Em determinado momento do filme é possível até mesmo se sentir culpado por estar assistindo a esse tipo de produção.

Desde a cena de abertura, já se percebe a intenção de realmente perturbar o espectador. O casal (interpretado por Naomi Watts e Tim Roth) está viajando de carro com o filho, escutando música clássica. De repente, sem o menor aviso, a trilha sonora muda para um barulhento heavy metal que te faz pular da cadeira. Este artifício de assustar o público com uma música alta é utilizado mais tarde, dentro da própria história, para a assustar um dos personagens numa das cenas mais tensas do filme. E é justamente toda a construção da tensão que faz Funny Games valer a pena. É uma verdadeira aula de cinema e de como construir todo um clima de terror sem precisar apelar para litros e litros de sangue falso, ou mostrar cabeças estourando. O diretor Michael Haneke prova que, se bem dirigido, menos é muito mais.

O filme começa bem calmo, com a família se instalando na casa de campo na qual planejam passar uma semana relaxando. Como nós já sabemos do que se trata o filme, é impossível não ficar apreensivo esperando o momento em que vai dar merda. O diretor, porém, não tem pressa de começar o massacre, mostrando toda a tranquilidade daquele belo dia de sol. Pai e filho montam o barco no qual planejam velejar durante o passeio, enquanto o maior problema dentro de casa é o cachorro atacando a comida dentro da geladeira. O clima de tensão começa a aumentar quando dois estranhos jovens aparecem pedindo favores para os donos da casa. Eles chegam de mansinho, fazendo perguntas e o nível de ameaça vai aumentando, assim como a ansiedade e o nervosismo de quem está assistindo o filme.

Quando finalmente começam as torturas, percebemos que não são apenas os personagens que vão sofrer, mas o próprio espectador. Se a família atacada é torturada fisicamente, nós somos torturados psicologicamente. Haneke nos coloca como cúmplices da dupla de maníacos ao fazer um deles olhar diretamente para a câmera e dialogar com o público, perguntando coisas como “você está se divertindo?”. E mesmo que você não se divirta com o horror sofrido pela família e se sinta culpado de não desligar a tv, é difícil parar de assistir Funny Games, que é uma verdadeira aula sobre cinema de suspense.

Se você tem problemas com cenas muito gore, repletas de sangue e desmembramentos, pode assistir ao filme sossegado. Como eu mencionei, Funny Games tortura o espectador da pior forma possível: sem mostrar praticamente nada do que acontece em cena, deixando tudo para a nossa fértil imaginação. Os ângulos de câmera escolhidos pelo diretor sempre focam o rosto de algum dos personagens, enquanto outro está sofrendo algum ferimento. A cena em que o filho do casal tem a cabeça enfiada dentro de uma fronha, por exemplo, ficamos a maior parte do tempo apenas escutando sua respiração com dificuldade, sem ver como um dos torturadores o está segurando. Uma das cenas mais tensas é quando os malucos resolvem matar um dos três reféns com um tiro de escopeta. Um deles fica escolhendo a vítima no unidunitê, enquanto o outro vai pra cozinha preparar um lanche. E é óbvio que acompanhamos o segundo para a cozinha, apenas escutando as súplicas, os passos desesperados, o barulho do tiro e os gritos de horror. E a câmera fica lá, na cozinha por uma eternidade, deixando que imaginemos o que aconteceu.

Quando finalmente a câmera volta para o andar de cima focaliza apenas a tv e uma parte da parede que estão manchadas de sangue, enquanto os dois torturadores ficam discutindo sobre a morte que acabou de acontecer. O diálogo entre eles deve durar no máximo uns dois minutos, mas são minutos intermináveis que nos deixam ali sem saber quem morreu afinal de contas. Em outra cena, na qual uma faca é utillizada, nós só escutamos a arma rasgando a carne da vítima e seus gritos de dor. E quando é dada a chance dos sobreviventes tentarem escapar, mais angústia, sempre mostrando os personagens em ângulos de câmera bem fechados. Isso dá uma sensação de que quando passar para um plano aberto os torturadores estarão bem ali, prontos para continuar a “brincadeira”.

Michael Haneke tortura o espectador até mesmo utilizando aquele velho clichê de que os bandidos sempre se dão mal no final. Quando um dos torturados finalmente consegue matar um dos seus captores, nos dando a impressão de que tudo acabará bem, o outro diz que aquilo não está certo e simplesmente dá um jeito de consertar tudo. Com tudo isso, Funny Games não é um filme recomendado para os mais sensíveis, porque é difícil não se sentir mal depois de assistí-lo. Porém, para quem gosta de cinema e quer aprender como fazer um bom suspense, ele é mais do que recomendado. As lições de direção contidas neste filme deveriam ser seguidas por muito filme de terror por aí que se concentra apenas em mostrar bastante sangue falso, como se isso fosse muito assustador.

PS: O título em português – Violência Gratuita – é excelente, pois é exatamente isso, dois adolescentes malucos torturando pessoas sem nenhum motivo. Apenas para divertir o público.

 

 Funny Games U.S. (EUA, 2007)

Direção: Michael Haneke

Duração: 111 min

Nota: 8

Comente pelo Facebook

Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta