Gotham3

Sou fã do Batman desde criança, assisti o Batman do Tim Burton legendado no cinema em 1989 quando ainda nem sabia ler e sempre fico empolgado com alguma nova produção envolvendo o homem-morcego. Quando a Fox anunciou uma série sobre a polícia de Gotham antes da existência do cruzado encapuzado eu logo fiquei atento. A série tinha tudo pra dar certo, afinal, a Fox é conhecida por produzir diversas séries policiais e finalmente um seriado com personagens da DC sairia da mesmice das produções da CW, como Smallville e Arrow. Sem contar que a própria DC Comics teve uma série em quadrinhos focada na polícia de Gotham (a série se chama Gotham City Contra o Crime) que chegou a receber diversos prêmios. Infelizmente, assisti três episódios de Gotham e, bom, acho que é isso, já está na hora de abandoná-la.

O lema que move a série é basicamente o mesmo dos filmes do Nolan: Gotham é uma cidade corrupta, quase sem salvação, mas com algumas poucas pessoas que ainda desejam fazer o bem. O problema é que, ao assistir esses primeiros episódios, fica claro que só existem três pessoas honestas na cidade inteira: Bruce Wayne (ainda uma criança), Alfred e o detetive Gordon. Enquanto os filmes do Nolan passavam a sensação de que, apesar da corrupção, ainda existiam pessoas de bem e que a cidade merecia ser salva, a série simplesmente não consegue transmitir isso. Todos os policiais de Gotham (incluindo aí a capitã Sarah Essen) não dão a mínima para a corrupção da cidade. Torturas na delegacia de polícia são comuns e incentivadas pelas gargalhadas dos companheiros.

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A série falha até em mostrar o honesto Gordon tentando mudar todo esse sistema corrupto, já que até ele chega a fechar os olhos para certas atrocidades cometidas pelo seu parceiro Harvey Bullock. O mínimo que eu esperava é que ele tentasse impedir Bullock de espancar alguém para obter uma confissão, mas Gordon simplesmente deixa pra lá. Ah sim, existe ainda a Unidade de Crimes Especiais (UCE) representada pelos detetives Montoya e Allen, que são mostrados como caçadores de policiais corruptos. Porém, os dois não deixam de fazer acordos com alguns mafiosos para conseguir pegar os tais tiras do mal.

E tudo que citei até agora nem é o pior do seriado, Gotham consegue falhar até como uma série policial. Peguemos como exemplo os detetives da UCE. Eles obtém pistas de merdas feitas por Bullock e Gordon e o que eles fazem? Investigam? Claro que não, eles correm pra confrontar os dois detetives com todas as informações que obtiveram. Até eu que não sou policial sei que não se faz uma coisa dessas. Aliás, falando em investigação, é difícil imaginar o Gordon da série se tornando o comissário de polícia aliado do Batman. O cara praticamente não precisa investigar nada, as coisas vão simplesmente caindo no colo dele e pronto. Na ânsia de mostrar a cidade e os easter eggs pros fãs, a série não se dá o trabalho de mostrar o mínimo do trabalho de investigação.

Da esquerda para direita: Carmine Falcone, Selina Kyle (futura Mulher-Gato), Fish Mooney, Oswald Cobblepot (Pinguim) e Edward Nigma (futuro Charada)

Mas talvez um dos maiores pecados de Gotham seja tratar o espectador como um completo imbecil. A quantidade de diálogos expositivos é de fazer um bom roteirista se esconder debaixo da cadeira de tanta vergonha. No terceiro episódio eu perdi as contas de quantas vezes os personagens repetiam “Gotham é uma cidade corrupta” ou outras frases do tipo. Às vezes esse mantra era repetido numa mesma cena de diálogo, afinal, não basta que apenas um personagem diga isso, pra ficar bem claro é melhor que dois deles digam. A premissa da série é a corrupção da cidade, já entendi, não precisa jogar isso na minha cara a cada cinco minutos.

Como se não bastasse tudo isso, a série consegue falhar até no desenvolvimento dos personagens, mesmo tendo nas mãos personagens tão interessantes como os do universo do Batman. Harvey Bullock é um fanfarrão que quer ficar o dia todo na delegacia sem fazer nada e é isso. O alcoolismo dele chegou a aparecer no episódio piloto, mas não sei se levarão adiante. A Capitã Essen está ali apenas para berrar ordens e reclamar de tudo. O detetive Allen fica apenas fazendo ameaças vazias sempre com um risinho irônico (como um certo candidato à presidência), enquanto o melhor que conseguiram fazer com Montoya foi ela ter um passado (possivelmente amoroso) com Bárbara Kean, noiva do Gordon. E deixei a Bárbara pro final porque ela é a personagem mais inútil da série, estando ali apenas para fazer as vezes do espectador e escutar algumas explicações do Gordon (e toma mais diálogo expositivo).

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SIM, é a cena que ninguém mais aguenta ver de novo!

Claro que tudo isso que eu falei foi baseado em apenas três episódios e a série pode dar uma guinada e melhorar. Mas pra isso acontecer seria necessária a troca de todos os roteiristas de Gotham. Por mais incrível que pareça, a melhor opção para os fãs da DC continua sendo as séries da CW ( Arrow é legalzinha, apesar de ser um Batman com a roupa do Arqueiro Verde). Ao que tudo indica, a Marvel vai continuar batendo na DC quando o assunto são produções fora dos quadrinhos, já que Agents of S.H.I.E.L.D. é bem divertida e com ligações ao universo cinematográfico da editora.


chavesetas

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

1 COMENTÁRIO

  1. Caríssimo, Gotham não é um seriado policial. É a história sobre uma cidade corrupta, onde há somente três cidadãos honestos, o resto é corrupto, e se formos falar sobre flores, temos que mostrá-las o tempo todo…. Se você esperava um Gordon bunda-mole, bem, ele pode ser muita coisa, menos bundão, e mostra ser humano quando se alia ao Bullock e tolera alguns dos seus meios, afinal de contas, santo ele não é. Eu vejo esta série como a introdução ao mundo podre através do qual o Batman foi criado, bem como seus personagens que, se forem até a etapa das transformações, veremos como a Poison Ivy e outros ‘criminosos’ foram criados por experiências (?) genéticas ou sei lá. A coitada da Bárbara mãe sempre foi um personagem quartenário… Na minha opinião, eu gostei. Já vi, literalmente, e li quase tudo o que existe sobre o Morcego, e achei a série muito boa, afinal de contas, é só uma série enlatada para consumo…

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