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A sorte favorece o audaz.

Como em Filhos da Esperança, o diretor Alfonso Cuarón busca com Gravidade exemplificar a capacidade humana de persistir e prosperar. Mas, acima de tudo, a fita é a desculpa perfeita para que o mexicano coloque em prática sua ousada ideia de como se fazer cinema. É algo arrebatador, hipnotizante e principalmente atraente de se ver.

Creio que muitos (como eu) esperavam uma história de cunho psicológico, possivelmente subliminar ou talvez menos linear. No entanto seu roteiro, que fez em parceria com o filho Jonás Cuarón, é brutalmente racional. Não existe complexidade na temática.

Além de algumas analogias de nascimento (posição fetal, o cordão, o parto), o que vemos no geral é um simbolismo bastante simples. Uma representação do medo da morte, da solidão relacionada ao sentimento ou fato, e consequentemente o instinto natural de sobrevivência que aflora em situações extremas. Cuarón nos fala que em alguns momentos você precisa se agarrar as coisas, e em outros precisa se deixar levar.


Mas esta simplicidade não torna o longa menos inteligente ou relevante. Nem mesmo o sentimento de total improbabilidade presente naquilo que acontece na tela parece quebrar o encanto orquestrado por Cuarón, e o motivo disso, como já foi dito inicialmente, se deve a destreza dele como diretor.

É bastante clara a gana do mexicano em alcançar a maestria de seu ofício, para assim transcender barreiras cinematográficas. A evolução da sétima arte parece uma obrigação para o mesmo, e é na fluidez do andamento de seus trabalhos que ele dedica a maior parte de sua atenção (critério semelhante aos de grandes diretores, como Kubrick e Hitchcock). Suas cenas, minimalistas e ao mesmo tempo complexas, são de uma qualidade memorável, sempre enquadradas de maneira meticulosa, sempre belíssimas em totalidade. É cinema para eternidade.

Para alcançar tamanha perfeição, hoje, felizmente, o diretor tem o auxílio da computação gráfica, que preenche as frestas de seu elaborado sistema de filmagem, que envolve sets giratórios, entre outros aparatos mirabolantes. E assim, sem cortes aparentes, ele alcança sua tão almejada continuidade, e o resultado são sequências incrivelmente tensas, enormes, crescentes e decrescentes em ritmo.

A trilha sonora do improvável Steven Price parece puxar as entranhas do telespectador. É estranho ver uma estação espacial se desmanchar em mil pedaços sem produzir um click sequer. Ouvimos então apenas composições de ritmo errante, unidas a aflição das vozes dos personagens, que lutam para se manter vivos. A experiência é, na maior parte do tempo, angustiante.

E emergindo de águas profusas temos Sandra Bullock, oferecendo principalmente humildade com sua Dra. Ryan Stone. O papel não é o mais complicado da vida da atriz, mas o carisma da mesma faz da personagem alguém que merece toda a torcida do mundo, literalmente. Ed Harris oferta alguns bons diálogos como a voz do controle da missão, e George Clooney também parece correto como o lúcido astronauta Matt Kowalski – talvez lúcido demais, diria.

No final, Gravidade é uma obra prima do cinema de ficção científica. Algumas de suas imagens possuem tanta força, que serão lembradas e celebradas por anos a fio. O diretor Alfonso Cuarón consegue contar, com simplicidade narrativa e deslumbre técnico, uma história de coragem, superação… e sorte. Mas como disse Victor Hugo, “A sorte favorece o audaz“.

Gravidade (Gravity) –  (2013 – EUA, Reino Unido)

Duração: 91 min

Direção: Alfonso Cuarón

Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Phaldut Sharma, Amy Warren

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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

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