Não é um vazio que incomoda, ou um vazio que doi. A dor já veio e já foi embora, no entanto insiste em fazer esporádicas e indesejadas visitas. Mas nada que um jogo de cintura e uma boa caneca de café não resolvam.

Levou um cano do mecânico e o médico não tinha CRM. O carro ainda continua destruído, o dedo quebrado e o coração…

Bom, ele ainda precisa de reparo.

Vestiu as meias cor de rosa, calçou os patins e ajeitou os óculos. Descobriu que, sozinha, podia explorar muito mais as rodovias subespaciais existentes nos sonhos de terceiros. Marcou um “X” no dedo mais importante como que selando um tesouro de navio pirata.

Não sabia onde estava o mapa e nem com quem o deixaria, vai ver seu destino não era ser uma embarcação ou leme de navio. Vai ver não precisaria içar velas ou calcular a direção do vento.

Vai ver tudo o que precisava, era pedir ao mar por sorte.

E aprender a navegar.

Não era um vazio que doia com o toque ou com a lembrança, não era uma dor que incomodava ou uma gravidade cheia de espinhos. Não havia abismo ou penhasco, desfiladeiro ou garganta de pedra para mergulhar. Não havia vertigem ou escorbuto para sentir.

Era uma coisa oca, da qual um dia a gente se acostuma, preenche e/ou aprende a lidar com isso. Uma nova tatuagem, uma porção de pele que uma vez foi imaculada e branca, manchar sua camiseta favorita de vinho ou quebrar o seu vidro de esmalte predileto.

A gente aprende a lidar com essas coisas.

Com a perda também.

Ela olhou-se no espelho e lembrou daquilo que sabia, não poderia esquecer tão cedo. Mediu o corpo de cima a baixo e descobriu, por debaixo das roupas, guelras que tanto a fizeram feliz um dia. Sentiu as bolhas brotando do peito machucado e a voz hipnoticamente bonita renascer de uma garganta que por muito tempo só teve lágrimas.

Colocou seu colar de conchas e os brincos de estrela do mar, abriu a janela e deixou a brisa salgada entrar. Viu a luz do farol ao longe e se recordou de quando cantava nas noites de lua cheia. Queria aquela vida de volta, queria aquele seu “eu” de volta, queria juntar o passado com o presente num híbrido maravilhoso que ninguém jamais colocara os olhos antes.

Tirou os óculos e soltou os cabelos. O vazio não incomodava ou doía, era uma grande massa oca que esvaziaria com o tempo. A mesma ausência que se sente quando se cortam os cabelos. Mirou os próprios no espelho, talvez os deixasse crescer.

Como uma sereia.

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Jornalista. Fã de gore, terror e todas as bizarrices da internet. O pessoal daqui diz que eu sou um Shinigami.

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