– Sabe, eu culpo os filmes.

– Hein?

– É. Os filmes, os livros e a cultura pop em geral. A Ficção, sabe?

– Culpa de quê?

– Enganar a gente.

– Só engana quem se deixa enganar.

– E a ilusão de ótica?

– É, nessa você tem razão. Mas enganar com o quê?

– Ah cara, várias coisas. Descobrir que você não é um bruxo com 11 anos de idade, que não é um mutante, que no final dá tudo certo não importa o quão afundado na merda você esteja, que o cara esquisito sempre fica com a mocinha bonita, essas coisas. Se parar para pensar isso acaba deprimindo a gente.

– Mas também pode servir de válvula de escape para algumas pessoas. Pra todas as pessoas acho.

– O problema é qua a gente cria expectativa. Até hoje me sinto frustrado porque não descobri meus super poderes. Tá mais pra ilusão idiótica essa coisa toda.

– Isso é sobre ela não é?

– É tão evidente assim?

– Por mais que a conversa esteja tomando um rumo antropológico e eu esteja gostando, eu sei o objetivo de tudo isso. Você sempre faz a mesma coisa, prepara o terreno com um assunto, faz uma associação com o tema principal da conversa e o diálogo segue dai.

– Eu realmente preciso mudar de estratégia.

– O que foi dessa vez? Desembucha ai

– Eu a vi hoje de novo.

– E?

– Ele estava junto.

– Conseguiu pelo menos tentar parecer tranquilo com a situação?

– Por uns 10 minutos. Ai inventei uma desculpa e fui embora. Eu sou um idiota.

– Às vezes você é, mas nesse caso dá pra entender. Aconteceu comigo uma vez, lembra?

– É, só que no seu caso deu certo. Vocês estão juntos até hoje.

– E por que não pode ser o mesmo com você?

– Cara, olha pra mim. Você realmente acha que eu posso competir com ele? Ele é bonito, simpático, gente fina, conhece um monte de banda boa, é educado e tem um emprego mega respeitável. E tem todo aquele lance psicológico que eu já te expliquei.

– Aquilo é hipótese sua.

– Mas é plausível.

– É, se parar para pensar é bem plausível.

– E o que eu tenho pra competir contra um cara daqueles? Olha pra mim. Eu não sou bonito, não tenho um porte atlético, não tenho grana e meu repertório de piadas é de dar pena.

– Mas você conhece uma porrada de banda boa.

– Conheço mas até ai são 20 contra 1. Eu não tenho chance.

– Você não sabe disso.

– Claro que sei. Você já viu os dois juntos. Tá na cara que isso vai durar.

– No The Office não foi bem assim.

– No The Office tudo é de mentira. Minha vida não tem roteiristas. Esse final feliz tá fora de cogitação, pelo menos pra mim.

– Você devia parar de ser tão pessimista.

– Pode até ser pessimismo, mas tem realismo junto. Quais são as chances dela trocar aquele cara por um zé ninguém como eu?

– Cara, as mulheres são um mistério e completamente imprevisíveis. E outra, perfeição demais não agrada ninguém.

– Explica melhor isso ai.

– É. Para pra pensar. O cara é perfeito, ele só tem qualidades.

– Isso não tá ajudando.

– Pera porra, deixa eu terminar.

– Tá, continua.

– Se uma pessoas é perfeita demais, ninguém vai querer ficar muito tempo com ela.

– Como assim? Todo mundo sonha com o namorado perfeito.

– Só é perfeito porque tem defeitos, mas não é esse tipo de perfeição que estamos falando. Estamos falando da perfeição simátrica, redondinha. A do tipo que irrita.

– E?

– E ai que no começo pode ser tudo ótimo. O cara é cuidadoso, atencioso, bom de cama, sempre lindo e arrumado. Nunca esquece uma data e sempre liga no dia seguinte, se você falar que isso não está ajudando de novo eu vou te socar.

– O… kay.

– Depois de um tempo essa perfeição vai te deixando maluco porque o cara não tem defeito algum e os defeitos da pessoa são uma parte importante no relacionamento.

– Sem eles não existiriam as brigas ou DRs.

– Não só por isso, os defeitos de uma pessoa dão um charme ao relacionamento. O tornam mais humano porque ele é composto por seres humanos e sentimentos humanos, não robôs e comando programados entende?

– Isso faz sentido.

– E outra coisa, os defeitos mostram que você tem personalidade.

– E se for só composta de defeito?

– É defeituosa mas não deixa de ser uma personalidade.

– Então eu tenho chance?

– Claro que tem. Só precisa esperar.

– Eu devia deixar de ser tão antiquado e partir pro ataque.

– Isso vai te causar uma surra e acusação de tentativa de assédio sexual. Ou estupro no pior dos casos.

– Péssima ideia?

– Preciso responder?

– Então eu tenho que ficar na minha e esperar?

– Sim.

– Mesmo com os silêncios constrangedores que aparecem de vez em quando?

– Isso pode ser um bom sinal. Ás vezes a timidez é uma coisa boa.

– Queria que aquela fala da Mia Wallace fosse verdade,

– Sei que parece impossível mas você precisa relaxar perto dela. Ou faça uma lista de assuntos de emergência pra quando o silêncio aparecer.

– Filmes, livros, música e religião?

– Sim, sim, sim e não.

– Delicado demais?

– Vocês podem se engalfinhar

– Eu ai apanhar feio.

– Ia.

– E se eu adotasse uma postura mais Mr. Darcy?

– Só deu certo com a Jane Austen. E com a Bridget Jones.

– Ela gosta dos dois.

– Então vá com calma, sua personalidade é legal. E outra coisa, ela não é um prêmio estimado e fodão, ela é um ser humano.

– Ela é uma mulher, claro que ela é fodona.

– Mas não é um prêmio.

– É, nisso você tem razão.

– Paciência, meu caro. Paciência. Se for pra acontecer, vai acontecer. Mas pode demorar.

– Essa parte da demora é que me preocupa.

– Foca sua cabeça em outra coisa.

– Tipo video game?

– É.

– Eu precisava de uns jogos novos.

– Dá uma ralada no seu trabalho. VOcê não estava prestes a ser promovido? Então, promoção é igual a mais grana.

– E a mais trabalho também.

– E a mais direcionamento e esforço mental para outra coisa que não seja ela. Vi por mim cara, continua falando com ela na boa e ocupa sua cabeça.

– Tipo com uma ilusão idiótica?

– É… Tipo com uma ilusão idiótica.

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Jornalista. Fã de gore, terror e todas as bizarrices da internet. O pessoal daqui diz que eu sou um Shinigami.

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