Após mais de 20 anos do lançamento de Jurassic Park, as coisas não mudaram muito em Jurassic World. Isso é muito bom por um lado, nem tanto por outro. Quem iria adivinhar que mesmo depois de tantas tragédias temáticas, os humanos continuariam gananciosos e descuidados quando o assunto é fazer dinheiro com dinossauros requentados em laboratórios?

Jurassic World ainda tenta estabelecer algumas novas ideias para esta fantasiosa realidade alternativa, ideias estas que até fazem sentido, como por exemplo, um público alvo que já não se surpreende mais com Tricerátopos ou Tiranossauros Rex, que exige mais ação como entretenimento. Presas maiores e mais brilhantes. De qualquer maneira, tudo continua um grande e divertido absurdo.

No final, o que a franquia oferta, primordialmente, são dinossauros caçando humanos, e para chegar nisso, diretores e roteiristas inventariam qualquer coisa. Dessa vez inventaram uma nova espécie, o Indominus Rex, um híbrido de raças altamente inteligente e letal, que poderia muito bem trazer o logo da Coca-Cola ou Mercedes-Benz gravado na testa. Por trás de sua criação existem motivações diversificadas, impulsionadas por um capitalismo selvagem absurdo, basicamente insano.

Toda essa falta de noção é tradicional, pois afinal, são dinossauros caçando humanos. O que realmente faz a experiência valer é a sensação predatória. Para isso funcionar, são necessárias cobaias carismáticas, pela quais possamos torcer. Nestes dois quesitos, Jurassic World acerta como nunca. Toda a mistificação da inteligência e habilidades incomparáveis de Indominus, constrói uma base sólida de tensão para o público. O suspense da caça é exato, e emula uma ambientação bem semelhante ao do filme Predador, por exemplo. Já a escalação da dupla Chris Pratt e Bryce Dallas como protagonistas não poderia ser mais acertada. O filme está batendo recordes absurdos de bilheteria por causa dos dois, e todo o alvoroço parece justificado, pois ambos são ótimos profissionais do cinemão pipoca.

Na história, Pratt interpreta Owen, um treinador de raptors extremamente badass. Assim como em Guardiões da Galáxia, a veia cômica do ator se mistura com perfeição ao gênero de aventura e ação. Tamanha foi a aceitação do cara, que o fãs já o canonizaram como novo Indiana Jones. Porém, quem rouba a cena é Bryce Dallas no papel de Claire, uma das principais responsáveis pela administração do parque. A personagem, de personalidade austera e metódica, passa por uma transformação meteórica quando descobre que seus sobrinhos se perderam no caminho do fugitivo Indominus Rex. Por mais abrupta que seja essa mudança, é a naturalidade e talento de Dallas que tornam tudo mais cativante e engraçado. Ela nem mesmo desce do salto pra correr dos bichos.

Enquanto isso, na sala de controle, a equipe de suporte, formada resumidamente pelos ótimos atores Jake Johnson e Lauren Lapkus, consegue prover bons momentos dramáticos, que servem para humanizar os acontecimentos trágicos ao redor, e também oferecem humor de qualidade, quando se aproveitam de uma química de casal disfuncional.

Como de costume, a produção é tecnicamente deslumbrante, seja pelo uso indiscriminado de efeitos especiais ou pela integração (sempre bem-vinda) de animatronics incríveis. Uma das opções mais ousadas e interessantes de Jurassic World foi seu requinte de crueldade em termos de violência. Existe um nível de sadismo bem satisfatório por parte dos criadores. A releitura da trilha sonora, orquestrada pelo experiente Michael Giacchino, também se faz notar. Arranjos de piano tornam o tema clássico de John Willians em algo pesado, carregado de perigo. Uma adaptação criativa e perspicaz.

A direção do improvável Colin Trevorrow (que tem no currículo o indie Sem Segurança Nenhuma) agrega diferentes e interessantes valores para o trabalho. Já na primeira cena do filme, que detalha de maneira simétrica o nascimento de Indominus, notamos sua preocupação com o funcionamento ideal da tomada, e isso se torna uma constante. Nem sempre tudo sai como planejado, afinal, existem sim fraquezas estruturais no roteiro que atrapalham, mas no geral a condução é bem eficiente.

Enfim, Jurassic World não se importa de ser mais um na franquia iniciada por Steven Spielberg, e de maneira honesta, se torna tão importante quanto o primeiro. Cheio de referências e easters eggs, a fita é um prato cheio para aqueles que alucinaram com o original, e também para novas audiências. A receita infalível de não poupar nenhuma despesa continua firme e forte, e mesmo com problemas, o filme é Recomendado.

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (EUA, China/ 2015)

Duração:  124 min

Direção: Colin Trevorrow

Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Jake Johnson, Omar Sy, BD Wong, Judy Greer, Lauren Lapkus.


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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

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