KICK-ASS-2_CARTAZ_30cmKick-Ass 2 pode não ser a pior sequência da história do cinema… mas parece.

Olhando agora, em retrospecto, as chances de Kick-Ass 2 dar errado já se mostravam evidentes – nós que desviamos o olhar, perdidos em meio ao hype.

Pois afinal, Matthew Vaugh nada teve a ver com a obra. E como isso foi permitido?? O primeiro Kick-Ass – Quebrando Tudo saiu praticamente do bolso do cara, uma aposta independente, corajosa, que no final se tornou um dos melhores filmes de super-heróis de que temos notícia. Neste aqui, a direção e roteiro ficaram a cargo do inexperiente Jeff Wadlow, profissional que tem no currículo apenas dois longas, sendo um deles o “Quebrando as Regras”, fita de pancadaria brucutu, daquelas que seu pai assiste na Record no sábado à tarde. Simplesmente insano.

A história de Kick-Ass 2 se foca basicamente em dilemas fraternais, crises de personalidade, questionamentos morais que envolvem ação e consequência… e a Hit-Girl sofrendo bullying. É mais ou menos isso: será que eu consigo ser outra pessoa? Minhas promessas devem ser cumpridas mesmo quando parecem erradas? Devemos nos arriscar neste mundo que, definitivamente, não é uma história em quadrinhos? Estes elementos, se bem trabalhados, podem sim render um bom argumento na telona. Mas não foi este o caso.

Aqui, os personagens parecem não pertencer a lugar nenhum, eles soam contraditórios, ora surpresos com a violência da qual já foram testemunhas, ora ausentes. Eles são forçosamente submetidos a um comportamento estereotipado, que não significa mudança ou adaptação,  mas apenas falta de bom senso.

O clima de fantasia realista presente no universo criado por Mark Millar e John Romita Jr, que anteriormente foi adaptado com maestria por Vaugh, se perdeu totalmente. A tentativa do diretor Jeff Wadlow de humanizar heróis e vilões de forma juvenil, violenta e sem tanta seriedade, se mostra impossível quando não existe um bom texto para servir de alicerce.

Ou seja, a narrativa da sequência sofre com todos os problemas possíveis e imagináveis oriundos de uma má escrita e direção. O andamento descompassado faz com que tudo pareça o primeiro episódio da segunda temporada de uma série de ação teen bem fraca da Fox, com cenas se abarrotando, se atropelando de maneira frenética e tragicômica.

O desenvolvimento dos diferentes núcleos da trama é superficial e incoerente, com plote twist’s forçados ao extremo, como certos amigos que de repente se tornam inimigos sem motivo aparente – na verdade, o motivo é aparente, mas é simplesmente ridículo. Enfim, a roteirização de toda a história beira o amadorismo, sem personalidade, sem relevância, sem ritmo e consistência.

E todos estes defeitos fazem com que a presença de bons atores na produção se torne apenas um fato lastimável. Mas nada é mais decepcionante do que a participação de Jim Carrey como o Coronel Estrelas, melhor personagem do filme, que é tratado com requintes de imbecilidade. Na verdade, o propósito da maioria dos outros novos heróis e vilões é apenas de figuração, por mais que eles tentem dizer que não.

Visualmente tudo parece bacanudo, com diversos trajes maneiros e por aí vai, mas tecnicamente o trabalho é medíocre. A fita parece ter sido montada em torno de algumas poucas cenas de ação, que sofrem pelo exagero e falta de talento do diretor. Mal construídas (e até mesmo coreografadas), elas se apegam a violência, que no final não ameniza muita coisa.

A trilha incidental, antes soberba, aqui se mostra uma espécie de clone maldito, uma cópia genérica que não engana ninguém (me custa a acreditar que Henry Jackman teve participação nisso). Já a trilha sonora não existe – a sequência de Kick-Ass – Quebrando Tudo, que apresenta uma versão da música Omen (do The Prodigy) como tema de fundo (especialmente trabalhada para cena) simplesmente coloca este filme inteiro no bolso, em todos os sentidos (lembre-se da cena aqui).

Em resumo: podemos qualificar Kick-Ass 2 como uma acachapante decepção, daquelas que fazem Matrix Revolutions parecer um clássico máximo. O pior mesmo é ver uma franquia com tanto potencial ser manchada dessa forma. Eu culpo, acima de todos, o britânico Matthew Vaugh… como ele deixou isso acontecer? Ele deveria ter lutado e quebrado todos os ossos do corpo para evitar essa tragédia.

Kick-Ass 2 (2013/ EUA, Reino Unido)

Duração: 103 min

Direção: Jeff Wadlow

Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Chloë Grace Moretz, Morris Chestnut, Claudia Lee, Amy Anzel, Clark Duke, Mary Kitchen, Donald Faison, Steven Mackintosh, Monica Dolan, Garrett M. Brown, Christopher Mintz-Plasse, John Leguizamo, Jim Carrey, Lindy Booth, Chuck Liddell, Iain Glen

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Jornalista guerrilheiro, entusiasta de games ligeiramente sangrentos. Já teve banda de Heavy Metal, hoje toca Beatles no violão. Ama a sétima arte de forma visceral, prefere dramas reais - pois acha que a vida em certos momentos é incrível demais para ser verdade. Já escreveu sobre cinema, música e jogos em alguns lugares, hoje é editor do site Crítica Daquele Filme... e precisa fazer mais exercícios.

2 COMENTÁRIOS

  1. Já imaginava que não seria tão bom quanto o primeiro, mas não tanto assim. hehehe
    Resolvi não ver este no cinema e, pelo que li no teu texto, não me arrependo.
    É triste. Também acho que o Vaughn iria ter conduzido de forma diferente o projeto. Não sei o motivo dele não ter tocado este.

    Valeu!
    Té.

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