Em determinado momento de Logan, Charles Xavier apresenta para a jovem Laura o filme Os Brutos Também Amam, um faroeste (ou western) de 1953. Conforme ele conta o quanto gostou de ter assistido à produção na infância, a câmera do diretor James Mangold pula dos personagens de Logan para os personagens do filme que está passando na TV. Sem pressa, o diretor se detém por alguns segundos em uma cena perto do clímax do antigo western, na qual o protagonista Shane conversa com o pequeno Joey. “Não existe vida depois de uma matança, não existe volta depois que você mata alguém. Certo ou errado, é uma marca. Uma marca que gruda”. Apesar de ser citada por um personagem de um filme antigo, ela resume de maneira perfeita toda a vida de Wolverine que, mesmo quando se juntou aos X-Men, sempre carregou consigo a culpa por todas as mortes que causou no passado. E a escolha de uma cena de um filme de faroeste para resumir o personagem não é à toa, afinal, Logan é um perfeito exemplar de faroeste moderno.

A última aventura de Hugh Jackman como Wolverine possui todos os elementos característicos dos antigos westerns. O mais óbvio é o próprio protagonista, que é o clássico homem tentando fugir do seu passado e levar uma vida tranquila, mas que precisa voltar à ativa para proteger as pessoas que ama. Não falta nem a tradicional família do interior que, mesmo cheia de problemas para resolver, acaba acolhendo o protagonista, que por sua vez os ajuda a lidar com pessoas que os incomodam. Além disso, boa parte do filme se passa no oeste dos EUA, na fronteira com o México, repleto de paisagens desérticas. Aliás, nestes cenários James Mangold faz um trabalho fantástico na direção ao recriar cenas clássicas dos faroestes utilizando coisas modernas. No lugar dos cavalos temos os veículos, tanto de Wolverine quanto dos Carrascos, que protagonizam uma cena de perseguição sensacional no deserto que inclui até mesmo um trem, veículo indispensável em todo filme do gênero.

Logan, porém, não se limita a homenagear os antigos westerns, tendo seus momentos de road movie. E é nestes momentos que o roteiro se mostra tão eficiente quanto a direção do longa. Escrito por Michael Green e David James Kelly (a partir do argumento de James Mangold), o filme confia na inteligência do espectador e não entrega todas as respostas de mão beijada. Às vezes, Xavier e Wolverine conversam sobre coisas do passado que não fazemos ideia do que se trata, só entendendo por completo sobre o que eles falavam em algum momento mais à frente. Basicamente, a história do filme é sobre esses dois velhos amigos que já passaram por muita coisa juntos, se magoaram muitas vezes, mas nunca deixaram de nutrir um carinho especial um pelo outro. Assim, não é surpresa que em certa parte do filme os dois finjam ser pai e filho, afinal, no fundo é assim que um enxerga o outro. O roteiro ainda possui boas sacadas como o momento em que Xavier diz que era diretor de uma escola para pessoas especiais e que Logan era um péssimo aluno. E o momento em que o antigo Professor X diz para Wolverine como deveria ser a vida ideal é provavelmente o diálogo mais bonito e emocionante de toda a franquia X-Men.

O filme também se beneficia do fato de que seus atores principais já interpretam esses personagens há anos. Assim, já que é a última vez que Hugh Jackman e Patrick Stewart interpretam Wolverine e Charles Xavier, respectivamente, eles entregam uma atuação muito comovente, exatamente como pede o tom da história. Apesar de passarem grande parte do filme discutindo, é possível perceber, através de pequenos gestos, o que esses dois personagens significam um para o outro e que estão dispostos a qualquer sacrifício para se ajudarem. Reparem a delicadeza com que Wolverine ajuda Xavier a se locomover, sempre com movimentos suaves, com medo de que qualquer movimento brusco possa machucar o velho amigo, que já está bastante debilitado. Em contrapartida, é interessante perceber o olhar sempre determinado de Xavier, deixando claro que, apesar das preocupações de Logan, ele ainda possui muita força interior para lutar pelo que acredita. Para completar o trio de protagonistas, temos a jovem Dafne Keen, que faz um trabalho fantástico como a mutante Laura (X-23). Apesar da pouca idade (12 anos) e de ser a novata da equipe, ela interpreta sua personagem com uma paixão impressionante. Ela transita bem entre a total falta de emoção no rosto até uma expressão de fúria só comparável à do Wolverine.

Sim, Logan é, acima de tudo, um filme sobre o relacionamento entre seus personagens, mas isso não quer dizer que os realizadores esqueceram que estavam adaptando um personagem dos quadrinhos. E aqui temos a melhor aparição do Wolverine nos cinemas. Com uma classificação indicativa para maiores de idade, finalmente o mutante canadense pôde mostrar ao público o porquê dele ser conhecido como o melhor naquilo que faz. Logan não possui muitas cenas de ação, mas quando surgem na tela, elas são de cair o queixo. Logo na primeira cena do filme já temos Wolverine lutando contra um pequeno grupo de ladrões e percebemos que estamos diante de um filme completamente diferente de qualquer X-Men. O personagem arranca braços, pernas e cabeças dos marginais, tudo sem cortes ou movimentos de câmera que amenizem a violência. Quando Wolverine e Laura precisam lutar lado a lado, a coisa toda é linda de se ver, já que eles apresentam um verdadeiro espetáculo de violência e movimentos sincronizados. Este é realmente o Wolverine que os fãs sempre quiseram ver nos cinemas, é como se finalmente tivessem libertado o monstro das suas amarras. Porém, é importante ressaltar que em momento algum o filme é apelativo. Nenhuma cena de violência é gratuita, todas aparecem em momentos muito específicos e fazem a história progredir com naturalidade.

Logan possuía a difícil tarefa de oferecer uma despedida digna para Hugh Jackman e Patrick Stewart de seus papéis, além de tentar finalmente agradar os fãs do mutante canadense, que há anos esperam um bom filme do personagem. No final das contas, o filme não apenas conseguiu cumprir estas duas tarefas, como ainda abriu a possibilidade da Fox criar um novo universo mutante nos cinemas. Logan, assim como Deadpool, é a prova de que os estúdios precisam acreditar mais na visão dos roteiristas e diretores quando estes dizem que certos personagens só funcionam em filmes mais maduros. A sensação que fica quando o filme se encerra é de que, depois de duas fracas produções do Wolverine, finalmente fomos agraciados com uma pequena obra de arte estrelada pelo nosso adorado mutante canadense.

[quote_box_center]Logan (EUA/2017)

Direção: James Mangold

Duração: 2h 17min

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen.[/quote_box_center]

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