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O conselho que dou a todos que costumam reclamar da falta de criatividade do cinema americano é sempre o mesmo: Procure ir além de Hollywood. Não digo para você ignorar tudo que um americano ponha as mãos em termos de cinema e só ir ver filme iraniano. Longe disso. E sim para abrir os olhos para o que é feito do lado de fora também, independente do idioma e mesmo se o filme chega a ser lançado no Brasil. Afinal de contas, os torrents e as legendas da internet estão aí para corrigir este tipo de problema. Para conhecer essas obras vale tudo. Acompanhar premiações internacionais, conferir os mais bem avaliados no Rotten Tomatoes e n0 IMDB, pesquisar em blogs, etc. Isto feito, o caminho fica aberto para a descoberta de filmaços que chegam a provocar indignação por serem tão pouco conhecidos, como por exemplo: Hodejegerne, um thriller norueguês sensacional, Reprise, Festa de Família, Gomorra, Nuit NoireMonsieur Lazhar, O que eu mais desejo, entre outros.

E foi em meio a essa busca de conhecer bons filmes que descobri, quase que sem querer, um gênio do cinema e da animação quase que completamente desconhecido por aqui. Jan Švankmajer nasceu em Praga em 1934 e permanece vivo e produzindo até os dias de hoje. Assim que terminou seus estudos no Instituto de Artes Industriais e na Faculdade de Marionetas de Praga, da Academia de Belas Artes na década de 1950, Svankmajer começou a trabalhar como diretor de teatro, principalmente em associação com o Teatro de Máscaras e Lanterna Magika. Com base neste período, produziu seu primeiro filme de animação, Last Trick, baseado em suas experiências teatrais.

Apenas após conhecer Vratislav Effenberger e sua esposa Eva Svankmajerová, Jan voltaria sua atenção ao movimento surrealista que consagraria sua carreira de cineasta. Nos anos 60 ingressaria no Grupo Surrealista Tchecolosváquia e ainda em 68 faria seu primeiro curta-metragem de animação com toques surreais clássicos. Nos anos 70 seria proibido pelas autoridades comunistas de continuar a fazer filmes, permanecendo desconhecido e fora de atividade até meados dos anos 80.

Quando finalmente se viu livre para voltar a produzir sua arte Jan Svankmajer alcançou seu auge criativo e nunca mais parou. Seu clássico Dimensões do Diálogo se tornaria referência para animadores de todo o mundo, imitado continuamente e até mesmo selecionado por Terry Gilliam do Monty Python, ele mesmo influenciado confesso de Svankmajer,  como um dos melhores filmes animados da história.

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Em 1988, realizaria seu sonho de adaptar a obra-prima de Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas, em seu primeiro longa-metragem. Combinando técnicas de stop-motion para recriar o fantástico mundo da obra com a interpretação da jovem Kristyna Kohoutova, o filme desnuda todo o tom de conto de fadas e de lição de moral da adaptação da Disney, transformando-o em uma espécie de sonho, uma expressão do inconsciente, a realização de nossos desejos mais secretos, sem considerar as inibições morais e racionais, porque ele é impulsionado pelo princípio de prazer. O filme seria aclamado mundialmente como uma das melhores adaptações literárias já feitas, seria o embrião de muitas das características mais marcantes do autor e seria considerado até hoje a versão mais sombria de Alice.

Em 1994, após seis anos de produções de novos curtas, Svankmajer se lançaria ao desafio de adaptar uma outra obra ainda mais desafiadora, Fausto de Goethe. Mesmo não representando fielmente a lenda de Fausto o filme foi aclamado por seu surrealismo cotidiano, típico do seu conterrâneo Kafka e o tom cada vez mais sombrio e sarcástico. Aqui continuaria a usar técnicas de animação, trazendo desta vez marionetes para representarem Mefistóteles e os anjos.

Apenas dois anos mais tarde, lançaria uma das suas produções mais ousadas, Conspiradores do Prazer. Completamente sem diálogos, pontuado apenas por recursos sonoros e sua trilha e combinando técnicas cinematográficas de animação, o filme é sobre um grupo de indivíduos que se envolvem nos mais bizarros fetiches, tudo com um único objetivo: a busca pelo prazer máximo. Custe o que custar.

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Em 2000, se basearia  no folclore tcheco, para contar em tom de fábula a história de um casal que não pode ter filhos. Então o marido escava no quintal uma raiz e a talha, de forma a ter a forma de um bebê. Sua esposa decide cuidar dela como se fosse uma criança, lhe dando banho e até amamentando. A raiz ganha vida misteriosamente. Entretanto, a estranha criança acaba desenvolvendo grande apreço por carne e quanto mais ela cresce, maior se torna seu apetite e nem mesmo seus pais estarão livres de se tornarem prováveis candidatos a cardápio do filho. Explorando humor negro, críticas à mídia de massa, e cenas dignas de figurar em muitos bons filmes de terror, o filme foi considerado como um dos melhores dos anos 2000 e melhor filme tcheco em anos.

Com Insanidade, de 2005, Jan Svankmajer começaria sua obsessão a iniciar seus filmes com uma pequena introdução onde conta como surgiu a idéia da história, a técnica adotada durante as filmagens e onde costuma ironicamente diminuir a si mesmo e sua própria obra.  O filme é vagamente baseado em dois contos, “O sistema de Doutor Tarr e Professor Fether” e “O Sepultamento Prematuro“, de Edgar Allan Poe.

Em 2010, lançou Surviving Life (Theory and Practice), uma comédia que une animação recorte a partir de fotografias dos atores e cenas filmadas tradicionalmente. Contando uma história de um homem que vive uma vida dupla em seus sonhos onde se encontra com outra mulher, o filme foi considerado o seu auge criativo e também o seu mais original e difícil de ser interpretado.

Seu próximo projeto é chamado de Insetos e é baseado no jogo Pictures from the Insects. Rememorando A Metamorfose de Kafka, a história mostra insetos que se comportam como pessoas e pessoas que se comportam como insetos. Uma história dessas nas mãos de um artista inovador como Jan Svankmajer é impossível saber o que virá. Apenas uma coisa é certa. Ele nos surpreenderá mais uma vez.

Abaixo, alguns dos seus curtas mais famosos.

Flora

Dark Light Darkness

Food

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Atrapalhado, paranóico, assíduo falante, leitor e cinéfilo voraz, teve desde muito novo os livros e os filmes como grandes companheiros da sua vida. Graças a eles desbravou novos mundos e universos, venceu batalhas e guerras e conheceu pessoas e povos de diferentes tempos. Tem como seus maiores ídolos Louis Ferdinand Céline, Machado de Assis, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Um dia pretende concluir seu próprio livro. Enquanto isso não acontece, escreve críticas literárias na Mob Ground. @MuriloAndrade Facebook

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