Meu primeiro contato com Twin Peaks foi ainda na infância, quando a série era exibida em alguma madrugada da Globo com o nome de Twin Peaks: O Assassinato de Laura Palmer. Minha mãe gravava os episódios pra assistir no dia seguinte e eu acabava vendo alguns trechos. Mesmo tendo apenas uns seis anos de idade, duas imagens ficaram gravadas na minha mente. A primeira era o agente Dale Cooper retirando um pequeno pedaço de papel que estava embaixo de uma das unhas da falecida Laura Palmer. Deve ter sido neste momento que eu entendi o que acontecia quando alguém morria, afinal, a personagem não sentia nada enquanto o agente fazia aquilo. Já a segunda cena que me marcou foi o Agente Cooper em um bar, assistindo a apresentação de uma cantora, quando de repente surge no palco um gigante que apenas Cooper consegue enxergar. Aquela imagem era, ao mesmo tempo, estranha, perturbadora e fascinante, fazendo com que eu me lembrasse dela mesmo depois de tantos anos.

Toda essa estranheza fascinante é justamente a alma de Twin Peaks, série criada por Mark Frost e David Lynch, que revolucionou o modo de fazer TV no começo da década de 1990. Utilizando o assassinato da jovem Laura Palmer apenas como uma desculpa, Frost e Lynch apresentaram um universo onde nada é o que parece. Conforme a história do episódio piloto avança, vamos descobrindo que a identidade do assassino é o menor dos mistérios da cidade. Praticamente todo personagem possui algum segredo em maior ou menor grau. Assim, embora o grande destaque deste episódio inicial seja justamente o mistério do assassinato, logo fica claro que a série é muito mais do que isso. Tráfico de drogas, prostituição e empresas corruptas são apenas algumas coisas que vamos descobrindo junto com o agente do FBI Dale Cooper, que foi escalado para investigar a morte de Laura. É com o personagem também que começam a aparecer as características sobrenaturais da série, já que ele conta com sonhos e visões que o ajudam a solucionar crimes.

Apaixonado por donuts e um café bem quente, Cooper está sempre de bom humor e é extremamente otimista. Ele é o tipo de pessoa que consegue enxergar beleza nas pequenas coisas da vida, fazendo com que ele seja o personagem mais estranho no começo da série. Assim, é muito interessante quando vamos descobrindo personagens que são ainda mais estranhos que ele. Como o Dr. Jacoby, um psiquiatra tarado e que costuma ter casos com suas clientes, mesmo que elas sejam menores de idade; Leland Palmer, pai de Laura, que exorciza sua dor dançando em locais públicos enquanto chora copiosamente; a Dama do Cepo (Log Lady), que conversa com um pedaço de tronco de madeira e ajuda em algumas investigações. Twin Peaks ainda foi revolucionária ao trazer para a TV uma personagem transexual numa época em que nem se falava disso. Interpretado por David Duchovny (que depois faria sucesso em Arquivo X), Dennis Bryson era um agente do DEA que, depois de trabalhar disfarçado como mulher, percebeu que gostava de ser uma e resolveu mudar seu nome para Dennise.

Embora os habitantes de Twin Peaks sejam interessantes, talvez o mais fascinantes da série sejam mesmo os personagens sobrenaturais, justamente porque não apareciam o tempo todo. Uma das coisas mais divertidas da série era ficar na expectativa de quando veríamos novamente o Assassino Bob, o Gigante ou o Homem de Outro Lugar. Este último aliás, é o responsável por algumas das cenas mais perturbadoras de toda a série. Como as cenas com o personagem se passavam em outra dimensão, David Lynch pediu ao ator Michael J. Anderson que dissesse suas falas de trás pra frente e na hora da montagem dos episódios a cena era invertida. Isso faz com que o personagem fale uma espécie de inglês que soa familiar e completamente estranho, ao mesmo tempo. Com essa técnica, o próprio modo do personagem se movimentar acaba ficando estranho (afinal, a imagem estava rodando ao contrário), fazendo com o que o espectador sinta um certo incômodo, mesmo sem saber direito porque.

Mas nem só de personagens estranhos vive Twin Peaks. A série foi a responsável por transformar o modo como as pessoas assistiam séries de TV. Até o surgimento dela, o padrão das séries nos EUA era que a história começasse e terminasse dentro do mesmo episódio. A ideia era de que as pessoas queriam apenas chegar em casa e assistir o episódio daquele dia, sem se preocupar com o que aconteceu na semana anterior, ou com o que vai acontecer na semana seguinte. Mark Frost e David Lynch resolveram deixar esta fórmula de lado e criaram uma história que se estendia por todos os episódios da série, geralmente deixando algum tipo de gancho ao final de cada um para que o espectador voltasse na semana seguinte. Twin Peaks fez em 1990 o que é praticamente o padrão de todas as grandes séries de TV hoje em dia, com uma legião de fãs discutindo teorias a cada novo episódio e sempre se perguntando “afinal, quem matou Laura Palmer?”. Frost e Lynch abriram o caminho para que seriados como Lost e The Leftovers pudessem existir.

A série trouxe ainda uma narrativa diferente para a TV, com características que antes só eram vistas no cinema. Enquanto a maioria dos seriados utilizava diversos cortes durante as cenas, para deixar as coisas mais dinâmicas e menos cansativas para o espectador, Twin Peaks fez o oposto. Apesar de ter diversos diretores diferentes ao longo das suas duas temporadas, os episódios mantinham uma identidade visual em comum, apostando em cenas sem muitos cortes. Algumas vezes temos longos planos que mostram apenas os cenários, sem que nenhum diálogo esteja acontecendo. Já em outros momentos, a câmera foca em algum pequeno objeto do cenário, enquanto os personagens conversam fora de quadro. Além disso, apesar das tramas principais serem bastante sombrias, Twin Peaks não fica presa a um único gênero. A série consegue transitar bem entre o suspense, comédia, humor negro e dramas novelescos. Os arcos envolvendo os personagens Donna Hayward e James Hurley poderiam fazer parte de alguma temporada de Malhação. E o romance entre Andy e Lucy parece saído de alguma novela das 19 horas.

Para ajudar ainda mais a sua já fascinante narrativa, a série conta com uma trilha sonora fantástica. Composta por Angelo Badalamenti, basta tocar os primeiros acordes de algum dos temas para o espectador saber que tipo de história será abordada. Além disso, é impressionante como o tema de abertura da série pode ser interpretado de duas maneiras diferentes, dependendo do quanto já avançamos na história. Nos primeiros episódios, a música transmite uma sensação de estarmos entrando em uma cidadezinha muito agradável do interior dos EUA. Porém, conforme avançamos na série, a mesma música passa a transmitir uma sensação de que na verdade estamos chegando em um lugar amaldiçoado. Completando o pacote, Twin Peaks possui uma estética toda particular. Apesar da história se passar entre 1989 e 1990, alguns personagens possuem um visual que remete aos anos 1950 e 1960, enquanto outros utilizam figurinos que se encaixam em qualquer época. Isso acaba deixando a série meio fora do tempo, quase como se a cidade de Twin Peaks existisse em uma espécie de limbo onde todas as épocas se encontram. Aliás, é interessante notar que os sonhos de Dale Cooper e Laura Palmer abordam justamente essa questão do tempo. Em alguns momentos da série, ambos se encontram através dos sonhos, sendo que ele está sonhando dias depois da morte dela e ela, obviamente, tem o mesmo sonho um dia antes da própria morte.

Com tantas inovações assim de uma só vez, era até meio óbvio que a série não teria uma vida muito longa na TV. De acordo com o livro Twin Peaks: Arquivos e Memórias, da Darkside Books, alguns executivos da rede ABC acreditavam que as pessoas iriam abandonar a série ainda na metade do episódio piloto. Surpreendentemente, a série fez sucesso e ainda ganhou uma segunda temporada, algo que nem os próprios criadores e atores da série esperavam. Infelizmente, com o sucesso também veio a pressão para que a série revelasse o assassino de Laura Palmer. Isso aconteceu no sétimo episódio da segunda temporada e um pouco da alma da série acabou morrendo ali, principalmente pelo fato de que David Lynch passou a se envolver menos com a produção depois disso. Com os criadores da série afastados e sem sua trama principal como guia, os roteiristas ficaram meio sem saber o que fazer com certos personagens, principalmente Donna, James e Ben Horne, que possuem suas piores histórias a partir daí. Com o assassino capturado no episódio 9, os roteiristas também tiveram que criar alguma desculpa para que o agente Cooper permanecesse na cidade, o que culminou em uma trama bem fraca.

As coisas só voltaram a melhorar quando somos apresentados a Windom Earle, antigo parceiro de Cooper e novo vilão da série. É com a chegada dele também que a mitologia de Twin Peaks se desenvolve ainda mais e somos apresentados ao conceito das dimensões paralelas White Lodge e Black Lodge. Porém, nem essa melhora foi o suficiente para salvar a série do cancelamento na época. Assim, apesar do excelente episódio final e dos vários ganchos que ele deixa, a série foi cancelada após 30 episódios e os fãs ficaram sem saber se o agente Cooper conseguiu escapar do Black Lodge. Isso até o canal Showtime decidir ressuscitar a série sob o comando dos criadores, David Lynch e Mark Frost, 25 anos depois. E nunca é demais lembrar que no último encontro entre Laura Palmer e Dale Cooper ela diz “vejo você de novo daqui a 25 anos”. Bom, parece que esse dia finalmente chegou.

Fire Walk With Me

Em 1992, um ano depois do cancelamento da série, foi lançado nos cinemas o filme Twin Peaks: Fire Walk With Me, escrito e dirigido por David Lynch. Apesar de ter encerrado a série com um final aberto, Lynch estava obcecado pela personagem Laura Palmer e decidiu com este filme contar os últimos dias de vida da adolescente (o título no Brasil é Os Últimos Dias de Laura Palmer), mostrando tudo o que aconteceu até a noite fatídica do assassinato. Mas antes de entrar na história de Laura, o diretor aproveita para voltar um pouco mais no tempo e mostrar a investigação do assassinato de Teresa Banks, que foi vítima do mesmo assassino um ano antes. Uma das coisas mais interessantes nesta investigação é que a cidade em que ela morreu, Deer Meadow, é como se fosse um outro lado da moeda de Twin Peaks. O agente encarregado da investigação, por exemplo, se chama Chester Desmond, tendo as letras C e D como iniciais, enquanto Dale Cooper possui D e C como iniciais. Quando Chester chega na cidade, as diferenças ficam ainda mais evidentes, já que os policiais fazem questão de serem desagradáveis e não ajudar em nada. Bem diferente do clima amistoso que Cooper encontra ao chegar em Twin Peaks.

O restaurante em que Chester e seu parceiro, Sam Stanley, param para comer nem de longe lembra o clima aprazível do Double R Diner. Além disso, durante a estada na cidade os personagens se deparam apenas com cafés muito mal feitos, bem diferente dos deliciosos cafés que Cooper experimenta em Twin Peaks. Porém, o que mais chama atenção nesta espécie de universo paralelo da série original é a vítima Teresa Banks. Enquanto Laura Palmer morava em uma bela casa e era conhecida por todos por nunca ter aprontado nada (mesmo que isso não fosse verdade), Teresa morava em um trailer caindo aos pedaços e era conhecida por todos os vizinhos por ser uma prostituta viciada em drogas.

Até o modo como o corpo dela é encontrado e tratado é diferente. Se na série nos acostumamos com o cadáver de Laura de olhos fechados, parecendo estar em paz, o corpo de Teresa Banks está com olhos e boca abertos em uma clara expressão de terror. E quando o agente Sam vai retirar o pedaço de papel de baixo da unha de Teresa ele arranca a unha inteira, passando longe da gentileza com que Cooper trata o corpo de Laura ao também retirar um desses papéis. Até o modo como Lynch filma algumas locações de Deer Meadow parecem ter a intenção de espelhar a série. Enquanto a entrada da delegacia em Twin Peaks geralmente era filmada com a câmera fora da recepção, aqui a câmera fica dentro dela. Já na sala do xerife, a mesa dele fica do lado direito da tela, enquanto a mesa de Harry Truman em Twin Peaks fica do lado esquerdo.

Apesar de interessante, essa história inicial tem pouco a ver com o resto do filme e não demora para que comecemos a testemunhar a última semana de vida de Laura Palmer. Com todos os segredos sobre a garota e seu assassino já revelados durante o seriado, Lynch não perde tempo e já nos apresenta uma Laura usuária de cocaína e que não hesita em fazer sexo pelos corredores do colégio. Aliás, sem as restrições impostas pela TV, Fire Walk With Me mostra uma Twin Peaks com um clima muito mais sombrio e adulto do que o visto durante todo o seriado. Se na série era apenas mencionado que Laura usava drogas e se relacionava com vários homens ao mesmo tempo, no filme isso é mostrado sem o menor pudor, com diversas cenas de nudez. Porém, mesmo com esse clima mais pesado, é interessante como Laura Palmer acaba sendo mais humanizada no filme, já que na série, às vezes, parecia que ela tinha sido uma garota mimada e que aprontava só por aprontar.

Conforme a personagem diz em certo momento, ela começou a sofrer abusos sexuais a partir dos 12 anos de idade, algo que nunca foi mencionado na série e que traz toda uma nova visão sobre ela. Embora o filme respeite a mitologia de Twin Peaks, incluindo aí o Assassino Bob, o tema principal da história é abuso infantil. O que vemos aqui é uma adolescente tentando conviver com o fato de que é abusada sexualmente pelo pai há muitos anos. Com isso, Twin Peaks: Fire Walk With Me subverte algumas certezas que temos na série, como o fato de Leland Palmer ser apenas uma vítima de possessão do Assassino Bob. Embora mantenha a história da possessão, o filme dá diversas pistas de que Leland estava ciente de várias ações de Bob e que, muitas vezes, abusava conscientemente da própria filha. Já o fato de Laura enxergar a figura de Bob no lugar do pai pode ser interpretado simplesmente como uma jovem tentando lidar de alguma maneira com a sua triste realidade.

Não é à toa que a jovem se afunda no mundo das drogas e prostituição e não se permite viver um amor de verdade. Assim como muitas jovens no mundo real, Laura Palmer se sente culpada por não ter conseguido impedir tudo o que acontece com ela, tentando se punir de alguma maneira. Desta forma, David Lynch entrega uma história que pode ser entendida por qualquer pessoa, já que os fenômenos sobrenaturais podem ser enxergados como metáforas criadas por Laura para não ter que encarar a verdade sobre seu pai. Ao mesmo tempo, Lynch consegue enriquecer a mitologia para os fãs de Twin Peaks. Além de mostrar qual era o verdadeiro objetivo de Bob, ele apresenta até um novo cenário para o Black Lodge, que conta com a presença de vários outros espíritos além de Bob e do Homem de Outro Lugar. E, assim como a série, o filme se encerra com uma bela e enigmática cena, que não deixa claro se aquilo está acontecendo antes, durante ou após os eventos do seriado. Talvez esteja acontecendo tudo ao mesmo tempo. Vamos torcer para que algumas dessas perguntas sejam respondidas com o retorno de Twin Peaks à TV, já que David Lynch afirmou que o filme é muito importante para entender a nova temporada.

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Autor: Brad Dukes

Tradutor: Carlos Primati

Editora: DarkSide

Páginas: 320 páginas (capa dura)

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