[ARTE DA VITRINE]: Thiago Chaves (@chavespapel)

Texto publicado originalmente em 28/09/2011

 

(Ou Porque eu Defendo as Vaias em Shows)

Mulheres denunciam maus tratos por homens de maneira organizada? Feminazis! Homossexuais se organizam para reivindicar igualdade de direitos? Gayzistas! Fica incomodado porque as pessoas escrevem errado na Internet? É um Gramar Nazi! Não gosta de axé e vaiou a apresentação da Cláudia Leitte no Rock In Rio ou criticou o show no Twitter? Você pode estar sendo nazista!

É isso mesmo. Eis a exata frase de cantora Cláudia Leitte em seu blog: “Não gostar de Axé é normal! Anormal é achar-se superior porque conhece John Coltrane ou porque adora o Metallica. Procurem no Google sobre a história de um ariano que se achava superior aos judeus…”. Tudo isso porque ela deve ter se irritado muito com os comentários negativos de várias pessoas em relação à sua apresentação, por mais que não queira admitir.

Logo veio um monte de gente alegar que a cantora foi “mal interpretada”. Ao meu ver, se um monte de gente lê seu texto e entende errado, o problema está no texto e não nos leitores. Sem contar esse argumento escroto de “Não gostar de Axé é normal! Anormal é…”, que me lembrou aquele povo que diz “Nada contra gays, desde que fiquem na sua”. Claro, Cláudia Leitte, eu posso não gostar de Axé, desde que seja nos SEUS termos né?

Mas se você sabia que ela ia se apresentar, pra que ir lá vaiar?”

Não gosta? Chegasse mais tarde ou ia para um canto.”

Não gostou, ignore. Isso é falta de respeito.”

Essa linha de pensamento está certa? Será que todos os que foram para a cidade do Rock na última sexta-feira eram fãs de todos os artistas que se apresentaram?

Vamos ser sinceros: a maioria das pessoas planejou a tanto tempo a viagem para o festival e gastou tanto tempo e dinheiro para estar lá que fez questão sim de ficar no evento a maior parte de tempo possível. E mesmo que você só quisesse ver o Elton John, pagou pelos shows da Cláudia Leite, Katy Perry e Rihanna. E se já está pago, vamos lá dar uma conferida, certo? E se eu conferi , não gostei e quero deixar claro minha posição, faço o que? Vaio. É uma manifestação legítima do meu gosto, pouco importando se o restante do povo vai me acompanhar ou não. E o artista e organização de festival tem o direito e obrigação de saber quando erraram a mão, até para evitar o que aconteceu com os meninos do Glória, que foram vaiados O SHOW INTEIRO por culpa de erros crassos de casting.

Mas o pessoal do Twitter nem tava no show, não pagaram. Pra que ficar reclamando?”.

Bom, até onde eu sei eu posso omitir minha opinião quando eu quiser, desde que não minta e nem prejudique ninguém. Eu estava no Twitter na hora da apresentação da Cláudia Leitte e os comentários se resumiam a “axé no Rock In Rio não dá”, “que [insira seu palavrão favorito] de cover que ela fez” e “pelo menos ela é gostosa”. Duvido que os comentários sobre os shows da Katy Perry e Rihanna tenham sido diferentes. Então todo mundo fez o que faria se estivesse em uma mesa de bar vendo o show pela televisão: opinou. E ninguém é exatamente educado em uma mesa de bar, né? A única diferença do bar pro Twitter é que fica tudo registrado lá para você ou qualquer um ver depois. Isso pode até gerar desde processo até ego ferido, como é claramente o caso da musa do Axé.

Mas no Twitter todo mundo quer opinar, manjando ou não do assunto”.

E DAÍ? O Twitter não é uma faculdade ou revista/jornal/blog onde só “especialistas” ou “doutores” podem emitir suas opiniões sobre os assuntos. Fora o Marcelo Tas, ninguém é pago pra twittar. E vocês esperam análises profundas em 140 caracteres, é isso? Lá é Terra de Ninguém e as estrelinhas não se ligaram disso ainda. Não estamos nem aí se você é político, apresentador, jornalista ou ator. Lá você é só mais um e não vai receber tratamento diferenciado.

Mas o povo exagera e as vezes xinga por xingar.”

Concordo total. Nunca antes tivemos um canal para falar o que pensamos diretamente para pessoas que estiveram sempre tão fora do nosso alcance. Somos crianças deslumbradas com um brinquedo novo estamos testando os limites dele. E vamos aprender esses limites por tentativa e erro nossos, não porque a “velha mídia” e as celebridades não estão acostumadas a receber opiniões negativas.

Foi-se o tempo em que os jornais detinham o poder exclusivo de escolher quais cartas seriam publicadas ou não. Foi-se o tempo em que assessores de celebridades moderavam comentários negativos.

Esse bando de gente tava acostumado com a vida boa e agora não sabe o que fazer. Veem que não agradam e ficam desesperados, como essa nova geração de crianças educadas para não lidar com o bullying. que chora e corre para papai e mamãe em busca de conforto e proteção.

Pois bem, babacas, bem-vindos ao Deserto do Real.

Chico Buarque precisou criar um site para descobrir que muitos o odiavam. Disse mais de uma vez em entrevistas que ficou chocado com isso (o que eu acho natural), mas em nenhum momento ficou chorando sobre o fato.

Cláudia Leitte foi lá, fez seu show, ganhou a grana de quem gostava e não gostava dela e ainda jogou na nossa cara em seu blog que vai cantar no Rock In Rio Lisboa e aqui no Brasil na próxima edição do festival em 2013. Tá reclamando do que, afinal? Reclamar porque foi malhada por tocar em um festival chamado Rock In Rio só pode ser vontade de polemizar ou burrice. Fica a critério de vocês leitores julgarem.

No dia em que criticar um show que eu não gostei com palavras de baixo calão for crime, talvez eu mude de opinião. Até lá, não encham o meu saco.

PS: Trabalho com inclusão digital e o termo “Orkutização” foi usado no título em caráter de ironia, tá?

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É um cara que já trabalhou (e trabalha) em muitas coisas e nas poucas horas que tem dá uma de escritor/poeta/jornalista/roteirista. Quando tem vontade atualiza seu blog, o “O Protagonista 2.0”. Foi colaborador do blog Cultura Nerd e atualmente escreve para os blogs sites Novelas Teen, Contraversão e Revista Entremundos. Pode ser encontrado a noite cambaleando bêbado pelas ruas de São Paulo ou falando seu nome três vezes em frente a espelhos em botecos suspeitos da Augusta e da Mooca. Uma mistura de Spider Jerusalem e John Constantine, ou não.

1 COMENTÁRIO

  1. Essa cantora se empolgou pelo interesse pelo povo judeu; não foi à toa que batizou o filho com o nome de Davi… Ela mesma que disse. É isso que dá se empolgar demais com um assunto que pouco conhece: fala merda e é vaiado. Afinal, cá pra nós, nem de música a coitada sabe.

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