Existem livros obrigatórios para todo tipo de pessoa. Para os fãs de épicos há Senhor dos Anéis, para os admiradores de um bom terror existem as obras de caras como H. P. Lovecraft e, mais recentemente, Stephen King. Para os nerds há a obrigação de ler O Guia do Mochileiro das Galáxias, ainda que depois de ler a opinião seja negativa. A trilogia de cinco livros é uma das mais homenageadas e tem um dia apenas para comemorá-lo, o Dia da Toalha (25/maio), onde você tem que andar o dia inteiro com uma toalha. O que eu quero dizer é que sem ler os livros de Douglas Adams você boiará num mar de referências que pode ser a conversa entre nerds.

Tudo começou com um programa transmitido pela rádio britânico BBC Radio 4. Depois partiu para uma compilação de fitas cassete. Logo foi radicalmente modificado e ampliado para ser lançado em livro, tornando-se sucesso imediato, com milhões de seguidores fiéis ao redor mundo. O sucesso estrondoso fez a história criada por Adams ganhar as páginas dos quadrinhos, uma série de televisão, games, um filme, peças de teatro e, o mais importante, a publicação de mais quatro livros. Assim surge a famosa trilogia de cinco livros. Houve ainda uma continuação escrita por Eoin Colfer, com permissão do Adams, Só mais uma Coisa. Embora os fãs tenham encarado o lançamento com ceticismo por duvidar que Colfer conseguisse ao menos chegar aos pés de Adams o livro foi bem aceito pela crítica. Para fins deste artigo, este livro não é abordado aqui.

250px-OguiadomochileirodasgalaxiasO início de O Guia do Mochileiro das Galáxias já diz muito sobre o que veremos em toda a série. Arthur Dent é um terráqueo que é salvo por seu amigo Ford Prefect, na realidade um alienígena do planeta Betelgeuse, da demolição da Terra. Então acompanhamos as aventuras absurdas e hilárias de Dent pelo espaço. Nas mãos de outro escritor de ficção científica a destruição do nosso planeta poderia ser contada de forma dramática. Mas não por Douglas Adams. Por ele esse momento se torna o início de uma das mais brilhantes sátiras da história, focando todos os temas abordados pela ficção científica. Mas alguém com a genialidade sarcástica de Adams não se resumiria a isso. Tudo podia virar motivo de riso em sua obra, principalmente a humanidade. Seu humor é leve, rápido, extremamente inteligente, bem britânico. Nada de humor para as massas aqui. Há piadas que você só entende se tiver um certo conhecimento prévio. Ele brinca com o absurdo das viagens intergalácticas e de seus habitantes, cada um mais inusitado que o anterior. A sensação de prazer durante a leitura é ainda maior por percebermos o quanto Douglas Adams deve ter se divertido escrevendo sua Trilogia, embora reze a lenda que ele fazia tudo, menos escrever! A leitura é ligeira, quando menos se espera percebe-se, não sem pesar, que o livro já acabou.

Mas, O Guia do Mochileiro das Galáxias não é apenas uma história de humor como já vi alguns dizerem. Douglas Adams sabia como poucos escritores a arte de contar uma história. A forma como ele inicia, intercala e fecha seus capítulos, as viradas bruscas na história, o enredo acelerado e que mesmo assim te faz pensar. Nos dias de hoje, em que a maioria das editoras está mais preocupada com vendas do que com a qualidade dos livros que lançam, a obra de Adams deveria ser lida por todos os escritores iniciantes que querem vender bem seus livros sem perder a qualidade artística. Quem já leu Carlos Ruiz Záfon, autor de A Sombra do Vento, e Markus Zusak, de A Menina que Roubava Livros, entende bem isso. Eles são exemplos de escritores que venderam bem e que um dia podem até chegar a ter seus livros considerados clássicos.

A escrita de Adams envolve conceitos complexos de tecnologia, biologia e outras ciências. Você pode ser um completo zero à esquerda em matemática ou química, mas ainda poderá se divertir com o Guia. Mas quanto mais souber melhor os livros vão lhe parecer. Encontrar um livro com piadas e referências que você sabe bem que poucos humanos vão compreender não tem preço.

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Uma das sacadas mais geniais do Guia do Mochileiro das Galáxias é por ele não ter sido escrito como um livro do planeta Terra. Foi feito como um livro publicado em todo o espaço. Graças a essa pequena mudança o estilo e a lógica da narrativa são muito mais técnicos, com descrições inimagináveis em outros livros, como “O ser humano é um ser bípede baseado em carbono e descendente dos primatas“. “Tão primitivo a ponto de ainda achar que os relógios digitais são uma grande idéia“. A maioria dos livros e filmes de ficção científica explora o espaço e os aliens como o diferente, o estranho. Graças a essa mudança de prisma de Adams as viagens no espaço são absolutamente comuns e nós, os humanos, é que somos bizarros. Criaturinhas atrasadas que mal sabem que existem outras formas vida fora da Terra. Até o planeta sofre: “Logo na Terra, o planeta mais chato do universo!” Isso rende uma infinidade enorme de piadas e críticas sensacionais que não contarei para o caso de você ainda não ter lido.

[Se você está lendo isso no planeta Terra, então:

Boa sorte. Existe uma boa quantidade de coisas que você não conhece mesmo, mas você não está sozinho nessa. Só que, no seu caso, as conseqüências de não conhecer essas coisas são particularmente terríveis, mas, olha, não liga não, é assim que a vaca vai pro brejo e afunda.

Arthur Dent funciona como uma solução narrativa. Como ele não sabe droga nenhuma sobre o espaço, tanto quanto nós não sabemos, aprendemos conforme ele aprende sobre outros planetas e raças. Vamos ganhando conhecimento naturalmente, mal percebendo isso. A verdade é que Arthur Dent simboliza a humanidade, eu e você, todos nós. O terráqueo é o personagem pelo qual o autor zomba da humanidade. Mais azarado do que o normal, atrapalhado. Num grupo de personagens bizarros é ele que causa identificação no leitor.

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A história tem uma infinidade de personagens, geralmente criados para ironizar alguma coisa. Sejam os psicólogos, os filósofos, a religião e a as universidades. Porém, além de Dent, poucos personagens são recorrentes na série. Um deles é Ford Prefect, um alien do planeta Betelgeuse que vem como pesquisador de campo para o planeta Terra para atualizar o verbete do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas acaba preso aqui por longos 15 anos. Durante esse tempo adotou o nome de Ford Prefect, porque pensava que era um nome bem comum e finge ser um ator desempregado. Até que um dia a raça Vogon surge nos céus anunciando que a Terra ia ser demolida para dar lugar uma via hiperespacial intergaláctica. Faltando segundos para o fim Ford pega uma carona clandestinamente na nave Vogon e salva seu amigo humano mais íntimo, Arthur. É um dos personagens que mais gosto da série por introduzir antes mesmo de irem ao espaço o quão alucinada seria a história.

Zaphod Beeblebrox é semiprimo (que tem três das mesmas mães) de Ford Prefect e presidente da Galáxia. Embora o cargo só sirva para desviar a atenção do povo de quem manda de verdade, sua vaidade quase não lhe permita perceber isso. Cheio de qualidades, quase todas ruins, é covarde, interesseiro e irresponsável. Não perde tempo pensando no que vai fazer, vai e faz, simplesmente. Rouba a mulher que Arthur estava quase ganhando em uma festa na Terra e a leva para o espaço. Tal mulher era Trillian. Não há muito a falar sobre ela, a não ser que ela é descrita como uma astrofísica brilhante, a mais inteligente das criaturas orgânicas e incrivelmente linda. Diferente de Arthur é ela é quase acostuma à rotina do espaço.

Marvin é o único robô entre os protagonistas e é a criação mais genial de Douglas Adams. Ele é um dos protótipos da Companhia Cibernética de Sirius projetados com a PHG, Personalidade Humana Genuína, e a prova de que robôs com sentimentos humanos pode não ser exatamente uma boa idéia. Marvin sofre de depressão, detesta e é detestado por todas as formas de vida por ter uma inteligência do tamanho do universo, 31 bilhões de vezes maior de que a de um humano e mesmo assim é obrigado a cumprir atividades idiotas como abrir portas ou servir de atraso para algum robô perigoso enquanto o resto do grupo foge.

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Mas também não poderia terminar este artigo sem falar do Guia do Mochileiro das Galáxias. Ele é tão recorrente na trama que chega a ser um personagem. O livro mais espetacular já publicado pelas editoras de Beta de Ursa Menor, mais popular que a Enciclopédia Galáctica, mais vendida que Mais Cinqüenta e Três Coisas para se fazer em Gravidade 0 e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Erros de Deus e Quem é Esse Tal de Deus, Afinal?. Externamente parece uma calculadora e tem mais de 9 milhões de páginas em sua memória. Traz impresso em sua capa uma das frases mais conhecidas pelos nerds, em letras garrafais e amigáveis “NÃO ENTRE EM PÂNICO!” O Guia tem tudo o que um mochileiro precisa saber em suas excursões pelo espaço. Embora algumas das suas informações estejam erradas ele faz questão de afirmar que o que está errado está terrivelmente errado. “A realidade vive errando. O Guia é definitivo.”

Douglas Adams não era como muitos escritores de ficção científica que vemos por aí, que parecem se cagar de medo com a tecnologia. Não só não a temia como era fascinado por ela. Achava que ela poderia combater todos os males do mundo. Mas também alertava que ela é responsável por guerras cada vez mais destrutivas. Ele chega a mostrar os problemas que enfrentaríamos caso as viagens no tempo se tornasse uma realidade. Queria saber o que ele escreveria sobre o atual mundo tecnológico se ainda estivesse vivo.

Sempre quando leio Adams não consigo conter certa inveja como escritor. O cara criou um estilo próprio e inconfundível e adquiriu uma liberdade criativa absurda. Ele chega a pedir, quase mandar aos leitores para que pulem logo para o último capítulo e ri de si mesmo, por não se preocupar em explicar tudo e revelando técnicas de narrativa.

o restauranteEmbora cada fã da série tenha um livro predileto da série ela, em essência, não muda significativamente. A estrutura da história é a mesma, um humor sarcástico e reviravoltas absurdas. O Guia é o único livro da série que não tem um desfecho. O Restaurante do Fim do Universo começa imediatamente onde o Guia terminou. E eu não achei só mais engraçado que o primeiro livro, ele também tem boas doses de suspense. Zaphod Beeblebrox ascende em importância e faz coisas por impulso, sem saber o porquê. O problema é que uma parte do cérebro está bloqueado, e essa parte lhe ordena a fazer essas coisas. Mas quem bloqueou uma parte de seu cérebro e por que motivo. O desfecho não poderia ser mais surpreendente.

avidaouniversoetudomaisA Vida, o Universo e Tudo o Mais tem um desfecho conclusivo, mas que poderia ser retomado no futuro, como de fato foi. Mas é aquele tipo de livro que poderia ter ficado por ali mesmo. Arthur Dent, após passar cinco anos isolado em uma caverna na Terra Pré-Histórica, precisa salvar o Universo da ameaça dos aliens do planeta Krikkit, uma raça de xenófobos que não resiste à idéia de haver algo além no universo que o planeta deles. Desta vez, Adams ironiza as guerras raciais, da maneira mais cruel possível. Também finalmente descobrimos qual a pergunta para a resposta da vida, do Universo e tudo o mais.

obrigadopelospeixesO meu livro favorito da série, embora detestado por alguns, é Até mais e obrigado pelos peixes! O único da série onde a história se passa mais tempo na Terra do que no espaço e personagens marcantes como Ford mal aparece e Zaphod e Trilliam são apenas citados. No primeiro livro, Adams conta que uma garota descobriu o que estava dando tão errado no planeta para que as pessoas não conseguissem ser felizes, mas a Terra foi demolida antes que ela pudesse contar para alguém. Fechava dizendo que a história não era sobre essa mulher. No quarto livro finalmente sabemos mais sobre ela. Fenchurch é uma das personagens que mais gosto, por se comportar como uma mulher comum, sem arroubos sentimentalistas e românticos que vemos por aí em outros livros. A presença dela introduz elementos inéditos na trama, como uma leve e cativante comédia romântica entre ela e Arthur. A conclusão do livro é definitiva, fechando o destino de Marvin e o resto dos personagens. Quer dizer… deveria ser definitivo, se Douglas Adams não caísse na tentação de escrever mais um livro.

praticamenteinofensivaO resultado disso foi o Praticamente Inofensiva, que alguns odeiam tanto que falam que é um livro à parte, sem a ligação com a série original. Em parte por causa do estilo. Parágrafos e capítulos cada vez maiores. Também por ser bem difícil de se situar durante a leitura. Aparecem duas Trillian durante a história e só um tempo depois você entende direito isso. Mas, principalmente, para a conclusão que Adams dá para os personagens, que pode causar uma decepção tão grande quanto o final de Lost em alguns. Não que o livro seja ruim, tem o mesmo humor que consagrou O Guia do Mochileiro das Galáxias um sucesso mundial. Porém, provavelmente nem todos conseguem aceitar um final tão definitivo e que abusa do humor negro como aquele. Eu disse “definitivo”? Esqueça. Como já disse lá em cima do texto houve uma continuação escrita por Eoin Colfer e autorizada pelo próprio Douglas Adams. Como nunca a li não tenho como falar sobre.

No fim, acabou que a obra de Douglas Adams acabou se tornando uma das maiores referências do gênero que ironiza, a ficção científica. Transpôs mídias, gerou seguidores e nos ensinou lições importantes, como a importância da toalha, a resposta para o sentido da vida, o Universo e tudo o mais e a nunca, NUNCA, entrar em pânico.

Curiosidades

O personagem principal do livro, Arthur Dent, teve seu nome inspirado em um escritor que em meados de  1600 publicou um livro chamado The Plain Man’s Pathway to Heaven.

Já o sobrenome de Ford Prefect, o amigo alienígena de Arthur, veio de um carro popular da época em que o livro foi escrito (daí a escolha de Ford de um nome considerado por ele “comum”). Na versão francesa o tradutor, temendo que a piada não fosse entendida, mudou o sobrenome para “Escort”, um carro mais conhecido.

No capítulo 7 do primeiro livro, Adams cita que o pior poema do universo foi criado por Paula Nancy Millstone Jennings. Na série original de rádio o nome citado era Paul Neil Milne Johnstone, mas Adams foi forçado a mudá-lo para o livro. Johnstone é uma pessoa real.

Publicado originalmente em 22 de julho de 2011 no NSN

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Atrapalhado, paranóico, assíduo falante, leitor e cinéfilo voraz, teve desde muito novo os livros e os filmes como grandes companheiros da sua vida. Graças a eles desbravou novos mundos e universos, venceu batalhas e guerras e conheceu pessoas e povos de diferentes tempos. Tem como seus maiores ídolos Louis Ferdinand Céline, Machado de Assis, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Um dia pretende concluir seu próprio livro. Enquanto isso não acontece, escreve críticas literárias na Mob Ground. @MuriloAndrade Facebook

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