O Nascimento de uma Nação conta a história real do escravo Nat Turner que, em 1831, liderou uma rebelião de escravos em Southampton, no estado da Virgínia, nos EUA. A rebelião durou apenas 48 horas e matou pouco mais de 50 pessoas brancas, entre senhores de escravos e suas famílias. Devido a isso, mais de 200 negros foram mortos em retaliação à Turner e seus companheiros. Dirigido e estrelado por Nate Parker, o filme conta a história o tempo todo pelo ponto de vista dos escravos, sem cair na armadilha de mostrar “heróis” brancos abolicionistas, que são tão comuns em filmes que tratam do mesmo tema.

Além de mostrar sempre o ponto de vista dos escravos, outra coisa que chama atenção no filme é que, ao contrário do que acontece em outras produções do gênero, ele não é focado em mostrar os maus tratos físicos que os escravos sofriam. Em certo momento, por exemplo, está na cara que um escravo coadjuvante vai morrer e, de repente, ele escapa, subvertendo tudo que estamos acostumados a assistir. Isso, porém, não impede que a produção seja extremamente angustiante. Contando com a empatia do espectador, que já sabe tudo que ocorreu naquele capítulo terrível da história, o filme precisa apenas mostrar os rostos apreensivos dos escravos para que fiquemos com o sentimento de preocupação. Claro que ainda existem cenas de violência física aqui e ali, mas o fato de serem em pequeno número fazem com que elas sejam ainda mais impactantes quando surgem em tela.

O filme também é bastante hábil ao mostrar que, mesmo trabalhando para senhores de escravos um pouco menos cruéis (na infância, Nat Turner até aparece brincando com Samuel, filho do dono da fazenda), os negros não eram vistos como mais do que animais de estimação. Desta maneira, a dona da casa trata com naturalidade o momento em que apenas informa a uma escrava que o filho desta vai passar a morar na casa principal para que possa estudar, uma vez que ele já sabia ler. Também não é surpresa quando descobrimos que os estudos de Nat vão se restringir à bíblia, já que os outros livros da casa não são para negros por possuírem ideias avançadas demais para eles. Isso obviamente mostra o medo que os senhores de escravos tinham de que qualquer conhecimento a mais adquirido pelos negros pudesse fazer com que eles questionassem sua condição de escravidão. Já a leitura da bíblia garantia a submissão.

O Nascimento de uma Nação consegue mostrar ainda que essa doutrinação acontece tanto para os negros quanto para os brancos. Nas cenas que mostram a infância de Nat vemos que ele é um menino sagaz, que aprendeu a ler por conta própria e que até pega uns livros escondidos dos seus senhores. Do outro lado temos Samuel, herdeiro de tudo, que brinca com as crianças negras como se não existissem diferenças entre eles. Ao vermos os personagens em suas versões adultas a realidade já é completamente diferente. Quando precisam sair juntos na carroça, Samuel geralmente está dormindo ou olhando para o lado oposto de Nat, já que os anos de doutrinação como dono de escravo fez com que Samuel deixasse a amizade de lado. Enquanto isso, o protagonista é mostrado como alguém muito mais submisso do que era na infância. Provavelmente resultado dos anos que passou estudando a bíblia, já que ele passa a enxergar tudo como a vontade de Deus.

Aliás, mesmo se passando em 1831, o filme levanta questões que continuam atuais, como a utilização da religião como forma dos poderosos controlarem os oprimidos. Nat Turner era pastor e começa a ser chamado para pregar para os negros de todas as fazendas da região, já que, segundo os senhores de escravos, Deus era a única coisa que os negros temiam. Desta forma, não deixa de ser gratificante quando vemos que Nat acaba utilizando a própria bíblia como forma de convencer outros escravos a se juntarem à sua rebelião, mostrando que um sistema de controle também pode ser utilizado pelos oprimidos para tentar derrotar os opressores.

The Birth of a Nation (2016)

Duração: 120 minutos

Direção: Nate Parker

Elenco: Nate Parker, Armie Hammer, Penelope Ann Miller.

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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