Recentemente recebi um trabalho pra fazer em troca de determinado valor monetário. Consiste em algo que eu até gosto de fazer, que é desenhar, embora o desenho em questão não seja algo que eu goste ou fosse querer desenhar. Jamais faria isso por livre e espontânea vontade, mas, considerando o valor monetário combinado, decidi topar. Quem é que não gosta/precisa/quer dinheiro?

Enfim, enquanto me debato aqui com uma falta de vontade de parar de enrolar e finalmente fazer isso de uma vez versus vontade de receber logo o valor monetário combinado versus vontade de morrer por ter topado e achar que o valor monetário combinado não vale o incômodo, paro pra pensar em Pagando por sexo, de Chester Brown, que li recentemente. Aproveitei para procurar a palavra prostituição em um dicionário online e, entre muitas definições, encontrei “colocar interesses materiais à frente de princípios ou idéias”. Todo indivíduo que se sustenta por meio de serviços prestados visando apenas interesses materiais, enquanto preferia fazer outras coisas, está, de uma maneira ou de outra, se prostituindo.

E isso é socialmente aceito e inclusive incentivado, especialmente se considerarmos que atividades de cunho artístico (as que mais incidem no prazer do indivíduo ao desempenhá-las) são até mesmo mal vistas e mortas no berço. O ideal, para os pais e para a sociedade, é que o indivíduo procure fazer algo que dê dinheiro e deixe dessas frescuras, ideais, sonhos, que quer que seja.

Até mesmo os bens sucedidos se prostituem, inclusive na arte que decidiram desempenhar por prazer. Vide Robert Crumb, que falou abertamente sobre ter feito seu álbum Genesis por dinheiro, entre muitíssimos outros exemplos. É algo “comum”. Embora usemos outras palavras ou palavra nenhuma ou simplesmente não toquemos no assunto, está mais do que entendido que é isso mesmo que acontece e que é isso mesmo que deve acontecer. Nossos pais esperam que nos prostituamos.

Que pais não querem que suas filhas encontrem um “bom partido” para contrair matrimônio? A ideia de que a filha se case com um indivíduo de sua preferência e não necessariamente seja possuidor de valores consideráveis ou uma carreira promissora, mesmo que seja um trabalhador honesto, desagrada. Ainda que seja socialmente aceita, seria preferível que a filha se prostituísse, embora ninguém use essa palavra.

Nos prostituímos diariamente em trabalhos desagradáveis, em horários que não nos favorecem, nos submetendo a burocracias e situações ridículas e revoltantes. Nos habituamos, sem, entretanto, sentir algum tipo de prazer nisso. Tirando o dia do recebimento do salário e das tentativas e acrobacias para o melhor aproveitamento dele, desempenhar a atividade desagradável e praticamente diária é uma pedra no sapato.

A questão é o tabu que gira em torno do sexo. A mesma sociedade que aprova milhões de zumbis operários desempenhando tarefas e atividades que os desagradam em empregos sugadores de vida insiste em desaprovar que mulheres façam e gostem de sexo. Cobrar por ele, então, é um gerador de desonra infinita. Acredito que as mulheres que cobram por sexo não podem se dar ao luxo de rejeitar parceiros que as desagradem, mas o que as difere de mulheres que casam por dinheiro? Ao meu ver apenas a formatação do acordo e a troca de parceiros, embora um casamento por interesse tenha aceitação social enquanto a prostituição é profundamente mal vista.

Não sou a favor da prostituição. Nenhum tipo de prostituição. Gosto de pensar em um mundo ideal em que cada um pode fazer o que gosta, sem ter a constante preocupação com seu sustento e aquisição de bens materiais em geral. Acho que qualquer atividade deve ser desempenhada por livre e espontânea vontade, visando prazer ou algum tipo de engrandecimento ou seja lá o que o indivíduo considerar que deve fazer. Ainda assim, estou aqui com esse desenho pra fazer. Um desenho que eu não quero fazer. Assim como já fiz e provavelmente ainda farei uma porção de outras atividades em geral, ainda que sexo não seja uma delas.

Em Pagando por sexo, Chester Brown defende a prostituição por considerá-la apenas mais uma profissão e que deveria ser respeitada como tal. Ele também defende que sexo é apenas mais uma atividade, algo que ele sente vontade de fazer, assim como sente vontade de comer ou ler um bom livro, e que seus amigos e parentes deveriam respeitar suas vontades e pontos de vista. Ele também acredita que é muito mais vantajoso obter sexo mediante pagamento do que em um relacionamento romântico, algo que se provou cansativo, caro e pouco proveitoso na opinião dele.

O ponto de vista apresentado no quadrinho é instigante e fica na cabeça do leitor por várias horas e dias e semanas depois de lê-lo. O traço é bom, ainda que eu tenha pensado em procurar uma lupa em alguns momentos, de tão pequenos que são os quadrinhos e os detalhes neles. Chester Brown conta sua história sem pudor e eu acredito que ele está bem à frente de seu tempo. Acho que essa discussão ainda precisa hibernar nas mentes das pessoas, para então poder acordar em um momento em que não nos sintamos tão envergonhados e constrangidos e desagradados pela ideia de falar abertamente sobre coisas que, em geral, fazemos, mas sobre as quais não podemos ou não queremos falar. A discussão terá mais lugar em um mundo onde mais pessoas sejam como ele e adquiram um pouco de sinceridade, objetividade e falta de constrangimento para tratar desse tipo de assunto.

Pagando Por Sexo

Autor: Chester Brown

Editora: WMF Martins Fontes

Páginas: 296

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Jornalista formada, produzo e consumo literatura, quadrinhos e música.

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