É impossível ler Eu Sou a Lenda e não comparar com o filme estrelado por Will Smith e Alice Braga em 2007. E é impossível não achar o filme meio caído depois de ler o material original. Ainda acho o filme divertido, mas é aquela coisa de sempre, Will Smith herói de ação, tiro, explosão e final manjado. Enquanto isso, o livro escrito por Richard Matheson na década de 1950 é uma angustiante história de terror, sobrevivência e, principalmente, solidão.

Robert Neville não está só!

A história começa mostrando a cansativa rotina de Robert Neville em um mundo tomado por criaturas noturnas que o protagonista chama de vampiros. Toda manhã ele checa as proteções de madeira nas janelas da casa, faz estacas de madeira e monta armadilhas para que as criaturas não cheguem perto do seu refúgio. Nada de um cachorro como fiel companheiro aqui, as únicas companhias de Neville são seus discos de música clássica e os vampiros que sempre surgem à noite tentando tirá-lo de casa (no livro os vampiros não são criaturas completamente irracionais). A solidão do protagonista é tão angustiante que ele chega a ter desejos sexuais pelas vampiras que cercam a casa de tempos em tempos.

Ao contrário do personagem interpretado por Will Smith, o Robert Neville do livro não é um cientista. Ele começa a estudar sobre biologia e procurar uma cura justamente pelo desespero de ser o único ser realmente vivo por ali. Com isso, certos trechos da história acabam sendo uma verdadeira aula de biologia também para o leitor, que acaba aprendendo um pouco sobre bactérias, bacilos, linfócitos e por aí vai. Mas apesar dessas “aulas forçadas” a narrativa nunca fica chata, se concentrando sempre em como Neville não consegue entender completamente o que está acontecendo e o seu desespero por conta disso. Aliás, vale mencionar que o personagem é bastante perturbado devido à solidão, apresentando um comportamento que beira quase à loucura em certos momentos.

Fotos: Editora Aleph

Mesmo com apenas um personagem durante a maior parte do livro e com pouquíssimos cenários, é impressionante como Eu Sou a Lenda nunca fica chato. Richard Matheson escreve de tal maneira que mesmo acompanhar um simples jantar de Robert Neville se torna uma tarefa tensa, já que ele nos passa a sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento. Além disso, quando parece que a história vai ficar sempre na mesma, o autor coloca algumas cenas de ação e perseguição de tirar o fôlego. Quando Neville consegue voltar para um local seguro e respirar aliviado é como se voltássemos a respirar junto com ele.

Tratando o vampirismo como uma doença causada por uma bactéria, Richard Matheson consegue tocar em um assunto que é comum nas histórias atuais: como o homem causa a própria destruição através da degradação da natureza. Em determinado momento, durante um flashback de Neville, ele dá a entender que a bactéria responsável pela doença pode ter começado depois de uma guerra. É uma passagem bem rápida do livro e os detalhes da guerra não são fornecidos (o livro foi escrito em 1954, mas a história se passa em 1976), mas é interessante notar como já havia essa preocupação ambiental por parte do autor.

Conseguindo manter o ritmo da narrativa do início ao fim, Eu Sou a Lenda ainda apresenta um final fantástico e que, caso fosse adaptado fielmente aos cinemas, poderia fazer com que o filme fosse lembrado por muitos anos. Além de surpreendente, o final traz toda uma rima com diversas coisas que Robert Neville comenta durante toda a história, amarrando de maneira coerente tudo o que acompanhamos até ali.

[quote_box_center]Eu Sou a Lenda tem capa dura e extras: prefácio de Stephen King, uma entrevista concedida por Matheson na qual ele fala sobre as influências e as adaptações do romance para o cinema e uma crítica do professor Mathias Clasen, da Universidade de Aarhus, Dinamarca, analisando as questões bioculturais da obra.[/quote_box_center]

124460375_1GGEu Sou a Lenda

Autor: Richard Matheson

Editora: Aleph (2015)

Páginas: 384 (capa dura)

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