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Depois do clássico GTA: San Andreas, para PlayStation 2, foi difícil não se frustrar pelo menos um pouco com GTA IV, que saiu no começo da geração PS3. Apesar de ser divertido no começo, ele vai se tornando cada vez mais repetitivo e, no lugar de um mundo aberto, a impressão é de que estamos presos na cidade de Liberty City sem muita coisa para fazer. Cinco anos depois, a Rockstar se redime trazendo o épico Grand Theft Auto V para fechar com chave de ouro a atual geração. Além de ser ambientado novamente em Los Santos, esse é o jogo que traz a comédia de volta para a série e oferece uma liberdade que nenhum outro GTA ofereceu antes.

O jogo começa com um prólogo, no qual vemos um assalto à banco nove anos antes da história principal. Logo em seguida o jogador é largado em Los Santos para fazer praticamente o que quiser. O gigantesco mapa da cidade já vem todo liberado desde o início, assim como qualquer veículo. A primeira coisa que eu fiz foi roubar um jato no aeroporto e viajar até o outro lado do mapa, sem barreiras invisíveis ou policiais bloqueando meu caminho. Claro que algumas coisas vão abrindo com o tempo, conforme missões específicas vão sendo completadas. O paraquedas, por exemplo, só começa a ser vendido nas lojas depois de uma determinada missão, mas é possível encontrá-lo em um local específico do mapa e usar mesmo antes de completar a primeira missão.

Essa liberdade toda não adiantaria nada sem um cenário bem trabalhado e o mapa de Los Santos está fantástico. A área urbana parece realmente viva, é como se aquele mundinho continuasse existindo mesmo depois que desligamos o console. São diversas avenidas largas, com quatro pistas em cada sentido, viadutos, túneis, placas de trânsito…Enfim, uma verdadeira cidade virtual. Viajar de carro para o interior do estado de San Andreas (representado pela área de Blaine County) dá aquela sensação de viagem mesmo, com várias saídas diferentes na estrada, postos de gasolina em pontos estratégicos e motoristas piscando o farol caso você entre na contramão. E o mapa é realmente gigante, levei oito minutos para atravessá-lo de uma ponta a outra de carro, sendo que os carros aqui são muito mais velozes do que em GTA IV.

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É difícil ficar cansado de admirar as paisagens que o jogo traz. Terminei o jogo com 86 horas e ainda não me cansei de andar de carro por todo o mapa. Sobrevoar o cenário com um avião é fantástico, dá pra ver cada detalhe dos morros e das montanhas repletas de irregularidades como na vida real. E ao contrário do que acontecia no jogo anterior, em GTA V ainda é possível ver os carros circulando pelas ruas mesmo quando estamos bem alto, acho que apenas acima das nuvens é impossível ver o que se passa lá embaixo. Como se todo o cenário terrestre e aéreo não fosse o suficiente, o jogo ainda traz cenários submarinos que são tão detalhados quanto os outros dois. Aliás, a paisagem submarina mostra que o objetivo da Rockstar era realmente criar um mundo que os jogadores sentissem vontade de explorar, já que apenas duas missões utilizam este cenário.

Graficamente é impressionante o que a Rockstar conseguiu alcançar nesta geração. Com tantos cenários diferentes era de se esperar que nem todos fossem detalhados, mas não é o que acontece. As casas na área urbana por mais parecidas que sejam, sempre possuem algo de diferente. O asfalto não é idêntico na cidade inteira, em áreas mais pobres ele é todo remendado e cheio de buracos, enquanto em outras áreas ele tem o aspecto de ser bem novo. As montanhas possuem diversas trilhas de caminhada e uma vida selvagem perigosa. Quando os personagens correm na areia podemos ver pequenos grãos levantando a cada passo, o mesmo quando eles correm na chuva. Falando em chuva, água é sempre uma coisa difícil de ficar perfeita nos games, mas GTA V chega perto disso. Quando a chuva é muito forte o asfalto e os carros passam a sensação de realmente estarem molhados. Isso sem contar que quando tem uma tempestade com raios é possível ver os raios e não apenas um forte clarão. E as ondas do mar na praia são uma das coisas mais lindas que já vi nos games.

A movimentação dos personagens sempre foi a coisa mais fraca da série, mas até isso foi melhorado em GTA V. Cada um dos três protagonistas se movimenta de maneira bem real e diferente entre si, cada um com seus trejeitos. Ao subir uma superfície muito íngreme os personagens projetam o corpo pra frente claramente demonstrando o esforço que estão fazendo. O rosto de cada um deles é repleto de pequenas características, como rugas, manchas ou feridas causadas pelo vício em drogas. Realmente um trabalho muito cuidadoso por parte da Rockstar.

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As colisões entre os veículos também foram muito aprimoradas. Agora os carros não vão simplesmente perdendo pedaços com batidas muito fortes. Antigamente uma batidinha de leve não fazia nada com o carro, agora ele pode ter sua pintura arranhada. Colisões um pouco mais fortes podem fazer com que uma das rodas fique travada porque alguma parte do carro ficou torta na batida. Sem contar que eles também ficam sujos com o passar do tempo. Com relação aos veículos aéreos, eles são afetados pelas condições climáticas no momento, sendo bem difícil manter um avião retinho por causa do vento. Enquanto em GTA IV não fazia diferença pilotar um helicóptero num dia de sol ou com chuva, em GTA V isso está bem diferente. E são diversos modelos a serem pilotados, desde jatos particulares (com cores e formatos diferentes), passando por um Boeing 747, caças do exército, até helicópteros dos mais variados.

A volta do humor

Uma característica que tinha se perdido no último jogo da série era o humor e a crítica à sociedade norte-americana. Com GTA V isso voltou com força total. Cada personagem pode acessar a internet através do seu smartphone e na página principal sempre aparecem algumas notícias. Meu conselho é que vocês leiam todas elas. Ao final de cada missão aparecem notícias nos sites sobre o ocorrido (elas também podem ser escutadas no rádio), mas o mais divertido são as notícias aleatórias que geralmente fazem piada com grandes corporações do mundo real. Um dos exemplos é que, no mundo de GTA V, um grande site de buscas vai começar a utilizar um carro para fotografar debaixo das saias das mulheres, mas o conteúdo total das fotos só poderá ser visto depois de clicar no anúncio que aparece.

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Temos ainda a versão do Twitter do jogo, no qual pessoas postam coisas como “meu cocô tá com uma cor estranha” e por aí vai. E todas essas notícias estão devidamente traduzidas para o português brasileiro, assim como todo o resto do jogo, incluindo aí mensagens de texto, e-mails e o quadro onde são planejados os assaltos. Acho que apenas uns dois sites de menor importância acabaram passando batido e estão em inglês. Como o jogo se passa em uma versão fictícia de Los Angeles, não poderia faltar diversas críticas à devoção que as pessoas tem pelos artistas ou pela conquista da fama a todo custo. Em um programa que seria a versão GTA do American Idol, as pessoas fazem de tudo para aparecer, desde simplesmente dançar até fazer sexo com animais em pleno palco. A missão em que ajudamos um casal de idosos a se aproximarem de seus ídolos é assustadora se pensarmos que no mundo real é capaz de algumas pessoas fazerem coisas parecidas.

Jogabilidade

Quando GTA V foi anunciado, uma das coisas mais comentadas era a jogabilidade envolvendo três personagens diferentes, com o jogador podendo trocar entre eles a qualquer momento. Com esse desafio em mãos, a Rockstar mostra mais uma vez porque é digna da nossa confiança quando anuncia algo novo. A jogabilidade funciona perfeitamente e é muito divertida. Nem todas as missões incluem os três protagonistas e nem sempre é possível trocar entre eles, mas as que utilizam o recurso fazem isso muito bem. Quando se trata de tiroteios, eles sempre ficam posicionados em partes diferentes do cenário e os jogadores precisam alternar entre os personagens para evitar que qualquer um deles morra. A inteligência artificial é boa, mas não a ponto de resolver tudo. A ideia da Rockstar é justamente que você faça tudo que for possível e não deixar o game trabalhar por você.

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Uma singela homenagem à Breaking Bad

Mais empolgante é quando cada um precisa fazer algo diferente na missão. Michael pilota um helicóptero que carrega um submarino com Trevor dentro, enquanto Franklin cuida da metralhadora. A partir daí o jogador alterna entre a pilotagem, os tiros e qualquer outra coisa que precise ser feita na missão. Os grandes golpes do jogo são poucos, mas sempre divertidos. Eles consistem em duas ou três missões menores de preparação para finalmente realizar o tal golpe, geralmente um assalto audacioso em algum lugar. Existem sempre duas opções de como realizar um golpe, o que acaba aumentando o fator replay do jogo. E além dos três protagonistas é necessário escolher mais alguns integrantes que vão ajudar na tarefa. O legal é que a habilidade de cada um deles realmente influencia no decorrer da missão, não sendo apenas algo decorativo.

Apesar de focar em três personagens, cada um com suas próprias vidas e coadjuvantes, em nenhum momento a narrativa do jogo se perde ou fica confusa. É tudo muito bem amarrado e, mesmo com um deles sendo claramente o protagonista da história, nenhum dos outros é deixado de lado. Embora o Trevor esteja sendo eleito pelos jogadores como o melhor personagem de GTA V, é até difícil escolher um preferido quando todos eles são tão bem trabalhados e possuem características próprias tão interessantes.

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Para completar o pacote genial que é GTA V, temos ainda o GTA Online, um multiplayer no qual você pode participar de mata-mata solo, mata-mata em equipes, corridas de carro/moto com ou sem armas, batalhas aéreas com caças, jogos de golfe ou tênis, e ainda completar missões típicas de GTA (como traficar drogas) com uma galera online. São muitos jogos multiplayer dentro de apenas um, tudo cercado pelo cenário maravilhoso de Los Santos e Blaine County. Com certeza eu poderia citar muito mais coisas a respeito deste grande jogo, mas são tantos pequenos e interessantes detalhes que abordar tudo deixaria este texto maior do que já está. Para os que curtem jogos de mundo aberto e multiplayer, Grand Theft Auto V é um item obrigatório na coleção. Junto com The Last of Us esse é um dos melhores jogos do ano e um dos melhores de toda a geração PS3/Xbox 360.

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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