Por todas as suas excentricidades, Twin Peaks é o tipo de série que você ama ou odeia. Difícil ficar em cima do muro neste assunto. Para quem faz parte do primeiro grupo, 2017 está sendo um bom ano. Além do retorno da série, com 18 episódios escritos e dirigidos por David Lynch, a editora Darkside Books lançou um livro contando todos os bastidores das duas temporadas originais do programa. Escrito por Brad Dukes, o livro é um apanhado de várias declarações dos envolvidos na produção da série, como roteiristas, diretores, produtores e atores. O que Dukes faz aqui é organizar todos os depoimentos de forma cronológica, fazendo com que o leitor acompanhe desde o desenvolvimento do episódio piloto até o cancelamento da série ao final da segunda temporada. As únicas ausências no livro são da atriz Lara Flynn Boyle, que interpretava Donna Hayward, e de David Lynch, que criou Twin Peaks junto com Mark Frost.

Para quem é apaixonado pela série, o livro é essencial e acaba fazendo com que a gente goste ainda mais da produção. O capítulo que trata sobre a trilha sonora mostra o quanto David Lynch era apaixonado por todo o mundo que ele criou junto com Frost. Apesar das composições serem de Angelo Badalamenti, Lynch participou ativamente da criação dos temas mais importantes da série, como a abertura e o tema da Laura Palmer. Nos depoimentos sobre a criação do episódio piloto, é interessante perceber como quase ninguém acreditava que aquilo realmente pudesse ganhar uma temporada completa na TV. Tanto que eles utilizaram locações reais para todos os cenários e, quando a rede ABC encomendou os sete episódios da primeira temporada, tudo precisou ser reconstruído em estúdio.

Além das histórias sobre a produção da série, o livro ainda contém histórias engraçadas de alguns dos envolvidos. David Lynch, por exemplo, se atrasou para a filmagem de um episódio por pura superstição. Na ida para o estúdio ele viu um carro com a placa 666 e continuou dirigindo pela estrada até encontrar um carro com uma outra placa qualquer, com o objetivo de cancelar o mau agouro que isso poderia trazer para o episódio. Outra história interessante que o livro apresenta é sobre como eram filmadas as sequências de sonho, nos quais o agente Cooper visitava o Red Room. Como era preciso mexer em alguns componentes da câmera, durante uma das gravações uma das peças quebrou e o diretor de fotografia Frank Byers precisou operar uma das câmeras de cabeça pra baixo.

Twin Peaks: Arquivos e Memórias nos ajuda ainda a entender um pouco melhor todos os fatores que levaram ao cancelamento precoce da série. De acordo com a maioria dos envolvidos, a rede ABC nunca gostou muito do programa e o fato de David Lynch ter o direito de decidir o corte final dos episódios só deixava os executivos ainda mais irritados. Durante a leitura do livro dá pra perceber que foi um verdadeiro milagre a série ter durado 30 episódios. Também é interessante que os próprios roteiristas e produtores admitem que tiveram parte da culpa pelo cancelamento, já que ficaram sem saber o que fazer depois que o assassino da Laura Palmer é revelado.

Além disso, como os depoimentos presentes no livro foram dados ao longo dos anos e em locais diferentes por cada pessoa, podemos acompanhar versões diferentes de uma mesma história. Uma delas é a respeito do romance entre Cooper e Audrey que iria acontecer no segundo ano de Twin Peaks. De acordo com o ator Kyle MacLachlan, ele recusou essa linha da história porque Audrey era uma adolescente e ele um funcionário do FBI. Porém, diversos outros depoimentos no livro dizem que ele recusou o romance porque Lara Flynn Boyle, namorada de Kyle na época, estava com ciúmes da personagem de Sherilyn Fenn estar fazendo mais sucesso que a personagem dela. E a história do retorno da atriz Piper Laurie (Catherine Martell) à série é hilária pela maluquice de David Lynch ao querer esconder isso de todo o resto do elenco.

Com depoimentos curtos e de várias pessoas diferentes sobre o mesmo assunto, Twin Peaks: Arquivos e Memórias acaba parecendo um grande e descontraído bate-papo entre os envolvidos na série e os fãs. Pela forma como tudo é escrito dá pra perceber que a maioria dos depoimentos foi feito em clima de descontração, fazendo com que a leitura se torne bastante fluida e nunca fique cansativa. Além das histórias sobre a produção de Twin Peaks, o livro acaba servindo também para dar uma panorama geral de como era o padrão da TV nos Estados Unidos do início da década de 1990.

Twin Peaks: Arquivos e Memórias 

Autor: Brad Dukes

Tradutor: Carlos Primati

Páginas: 320 (Limited Edition – capa dura)

Editora: DarkSide Books (2017)

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