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Não gosto de novelas. Nem um pouco. Não assisto nenhuma, mas é bem difícil ficar totalmente imune e manter um “conhecimento zero” a respeito delas. A coisa está em toda parte. E isso é uma das coisas que mais me irrita. Claro que não apenas novelas, mas é como se fossemos obrigados a engolir a agenda “global”, como se não houvesse opção ou escapatória. Esse tipo de coisa me assusta, então me desagrada profundamente quando chega ao meu conhecimento algum detalhe (ou vários) a respeito de novelas. Os diálogos, os bordões e todos os outros maneirismos que acabam “caindo na boca do povo” me fazem pensar em uma porção de zumbis que simplesmente absorve tudo sem questionar ou raciocinar. Posso estar exagerando, é claro, mas meu medo é externado em forma de reprovação a tudo que se refere a novelas. Até agora.

Em 2011, no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), evento bianual que acontece em Belo Horizonte, conheci pessoalmente meus já “conhecidos pelo twitter”, Hector Lima e Pablo Casado, e ganhei uma prévia (que você pode ler aqui) que divulgava a Sabor Brasilis, HQ roteirizada por eles e desenhada por Felipe Cunha e George Schall. Conversamos um pouco por lá e confirmei minha impressão virtual de que os caras eram mesmo legais e entendiam das coisas. Não apenas de quadrinhos, mas de todas as coisas. Então foi um pouco conflitante quando soube que a HQ deles era sobre… novela.  Não sei se eu teria cedido à curiosidade se não conhecesse os caras. Quer dizer, talvez eu acabasse cedendo se tivesse a oportunidade de dar uma boa folheada. A capa é bem atraente, a HQ foi publicada pela Zarabatana e a arte ficou ótima, com destaque especial para o uso das cores. Então misturando tudo isso com os nomes dos roteiristas, que, além de “meus brothers”, eu já considerava sinônimo de qualidade, eu soube que precisava ler Sabor Brasilis.

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Capa do o prequel distribuído no FIQ 2011

E foi só começar a ler para que qualquer resquício de desagrado com o tema voasse pra longe. Estava tudo ali, tudo que todo mundo que vive neste país sabe que acontece, que imagina mais ou menos como funciona, que já presenciou, acompanhou ou pelo menos ouviu falar. A comoção nacional por causa de um acontecimento em uma novela. E é preciso tirar o chapéu para o modo como os caras trabalham com isso.

A história gira em torno dos quatro roteiristas responsáveis pela novela Sabor Brasilis e suas respectivas tretas. A tensão nas reuniões, dúvidas, trapaças, pepinos para resolver e imagem pra manter, expectativa de uma nação pra fomentar. E apesar de o ponto chave da trama, o modo como os roteiristas precisam decidir quem matou Olívia Ribeiro, ser suficientemente interessante, uma das coisas que eu mais gostei foram os detalhes. Por exemplo, a óbvia preferência dos autores por um determinado personagem, o modo como eles usam redes sociais, que mesmo sendo algo simples, foi um recurso muitíssimo bem usado na HQ e que aproxima os personagens mais ainda da realidade e, é lógico, a arte. Mas o mais legal é isso, essa coisa de representar o brasileiro, da maneira mais acurada que eu já vi até agora.

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Levei Sabor Brasilis pra cama e terminei de ler praticamente em uma pegada só, envolvida pela fluidez da trama. Não fiz “as pazes” com as novelas e tudo que elas representam, mas é preciso reconhecer que é possível tirar algo bom delas, desde que seja bem pensado e bem executado. Especialmente porque a HQ foi muito além de simplesmente usar uma novela como ponto de partida para uma boa história, mas sim incorporar elementos e personagens reais, mostrando muito mais Brasil do que uns e outros quadrinistas por aí, que falam muito mais do que fazem, e só apelam para elementos isolados e clichês, criando algo abstrato, forçosamente poético, completamente irreal e… meio breguinha né, mas que acabaram recebendo uma projeção muito maior do que mereciam.

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Sabor Brasilis apresenta uma trama boa e bem pensada, que prende a atenção e o interesse do leitor, tem começo, meio e fim, e representa um Brasil muito atual e de verdade, além de ser totalmente destituída de pieguice. Quer você goste de novelas ou não, eu recomendo. Fortemente. E aproveito pra registrar que já estou aguardando a próxima HQ deles.

Sabor Brasilis

Autores: Hector Lima e Pablo Casado (roteiro) e Felipe Cunha e George Schall (arte)

Editora: Zarabatana

Páginas: 128

Nota: 9

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Jornalista formada, produzo e consumo literatura, quadrinhos e música.

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