Os anos 1980 provavelmente foram a era de ouro dos filmes voltados para crianças e adolescentes. Produções como Os Goonies, E.T. e Conta Comigo, muito mais que apresentavam histórias repletas de aventuras, ensinavam para as crianças o valor da verdadeira amizade. Já o clássico Clube dos Cinco mostrava para os jovens como a adolescência era difícil para todo mundo e que eles não estavam sozinhos nessa eterna busca pela aceitação dos outros. Quem cresceu assistindo esse tipo de filme tem verdadeira devoção por eles e saudades desse tipo de produção. Então eis que, em pleno 2016, a Netflix resolveu preencher esse vazio em nossos corações com a sua deliciosa série original Stranger Things.

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Criada pelos gêmeos Matt e Ross Duffer (Duffer Brothers), Stranger Things é uma verdadeira carta de amor não só aos filmes da década de 1980, mas também à toda cultura pop da época. A trama da série começa quando tudo dá errado em algum experimento secreto do governo e uma criatura sinistra escapa, indo se esconder nos arredores da pequena cidade de Hawkins. Na mesma noite, o jovem Will Byers, de 12 anos de idade, é atacado e abduzido pela tal criatura. A partir daí, toda a cidade se mobiliza para encontrar o menino, incluindo seus amigos Mike, Dustin e Lucas, uma galerinha que vai aprontar altas confusões para encontrar o amigo desaparecido. Além deles, a história ainda apresenta a enigmática “El” Eleven (Onze), uma menina que quase não fala e que possui estranhos poderes, que também fugiu do tal laboratório secreto.

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A partir daí, a história se desenvolve trazendo referências à década de 1980 a cada virada de página do roteiro. Se você cresceu nos anos 80/90, é impossível não se empolgar quando o grupo formado por Will, Mike, Dustin e Lucas é apresentado jogando uma eletrizante partida de RPG. A cada nova decisão tomada pelos garotos durante a partida, eu era automaticamente transportado para a minha infância e lembrava com clareza das partidas jogadas com os meus amigos na época. Demonstrando todo o amor que possuem pelos filmes dos anos 80, os irmãos Duffer ainda mostram os garotos utilizando walkie talkies e bicicletas, o meio de transporte mais comum das crianças naqueles filmes. Além disso, as conversas entre as crianças também trazem  aquela nostalgia gostosa de uma época em que lendas urbanas eram comuns, já que ainda não existia a internet para nos permitir desmascarar tudo em poucos minutos.

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A devoção de Matt e Ross Duffer pelos anos 80 é tamanha que Stranger Things poderia facilmente se passar por uma produção da época, caso não soubéssemos do que se trata. Apesar do suspense na história, a série possui toda aquela inocência característica daquela década. Crianças encontram um monstro assassino e não ficam paralisadas de medo, elas correm assustadas e gritando, de forma engraçada até; instalações do governo são invadidas com extrema facilidade, mesmo sendo secretas e possuindo vários seguranças armados; e uma mãe desesperada passa a acreditar no sobrenatural simplesmente porque as luzes da sua casa passam a piscar de modo estranho.

Como se não bastasse todo o clima nostálgico oferecido pelo cenário e personagens de Stranger Things, a série ainda é repleta de referências diretas a produções da época. Tem busca por locais secretos como em Os Goonies, longas caminhadas em trilhos de trens como em Conta Comigo, uma versão própria da fuga com bicicletas de E.T., luzes piscando como em Contatos Imediatos do Terceiro Grau e até uma referência a Poltergeist. Sim, Stranger Things não é só aventura, mas também tem bastante terror e suspense, com direito a monstros, universos paralelos e experimentos proibidos em seres humanos. Muita coisa ali parece saída diretamente de algum livro do Stephen King. Para os nerds de plantão existem diversas menções a O Senhor dos Anéis, gibis dos X-Men e ao RPG Dungeons & Dragons (que teve seu auge nos anos 80). E o melhor é que, apesar de todas essas referências, em nenhum momento a série parece um plágio, conseguindo construir um universo próprio bem interessante e com personagens extremamente carismáticos.

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Grande parte desse carisma vem principalmente dos atores mirins, que parecem ter sido escolhidos a dedo para cada papel. Impossível não se apegar e se preocupar com a aparentemente indefesa Eleven, interpretada pela atriz Millie Bobby Brown, ou ainda dar boas gargalhadas com Gaten Matarazzo, que interpreta o divertido Dustin. A série acerta ainda ao ter em seu elenco nomes como Mathew Modine e Winona Ryder, atores que atuaram em produções dos anos 1980, o que ajuda a aumentar o sentimento de familiaridade em quem viveu aquela época.

Apesar das várias crianças no elenco principal, Stranger Things não possui nada de infantil. Muito pelo contrário, algumas sequências são bastante tensas e podem chocar os mais sensíveis, como algumas mortes bem brutais. A cena em que Joyce Byers (Winona) tenta encontrar o filho quebrando as paredes da casa é de uma tensão inacreditável. E tem uma cena de perseguição numa floresta durante a noite que é pra deixar qualquer um sentado na beirada da poltrona prendendo a respiração. Mais uma vez mérito dos irmãos Duffer, que dirigiram sete dos oito episódios, e usaram muita coisa que provavelmente aprenderam assistindo diversas vezes filmes como O Iluminado e Poltergeist.

Assistir Stranger Things foi como fazer uma viagem a todo um universo paralelo habitado por todas as coisas que marcaram os anos 1980. Tem os filmes, monstros, a cultura, experimentos secretos do governo e toda a paranóia anticomunista devido à Guerra Fria. Tudo temperado com personagens marcantes e o instigante universo próprio criado por Matt e Ross Duffer. Aliás, o final da primeira temporada apresenta várias pontas soltas que deixam claro que os irmãos possuem várias ideias interessantes para as próximas temporadas. Pena que no final eu tive que voltar à realidade de 2016, porque foi uma viagem e tanto e eu não vejo a hora de retornar à pequena cidade de Hawkins.

Stranger Things (Netflix)

Primeira temporada: 8 episódios

Direção: Matt Duffer, Ross Duffer e Shawn Levy.

Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Natalia Dyer, Cara Buono, Charlie Heaton e Matthew Modine.

Obs: Cliquem aqui e vejam os 8 primeiros minutos da série, disponibilizados pela própria Netflix em sua conta no YouTube!

Obs 2: E aqui a fantástica trilha sonora de Stranger Things, disponibilizada no Spotify:

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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