[Este texto contém spoilers tanto da HQ quanto do filme]

Falar sobre a excelência com que a Warner produz suas animações baseadas nos quadrinhos da DC Comics é sempre chover no molhado: seja na TV, no cinema ou no mercado de home video, tais produções em desenho animado sempre foram sinônimo de alegria para os fãs de Batman, Super-Homem, Mulher-Maravilha e cia.

Por isso, como é de costume, a notícia de que uma das mais importantes HQs da DC viraria um longa animado foi muito bem recebida: A Piada Mortal, grande clássico de Alan Moore, não só receberia o tratamento respeitoso de praxe dos estúdios de animação da Warner – respeitando fielmente a obra original – como também receberia indicação para maiores de 18 anos!

Como tal classificação indicativa geralmente significa baixas vendas de ingressos, este filme se destinou apenas ao mercado de home video, sendo vendido diretamente em DVD e Blu-Ray. Mas ainda assim, atendendo aos insistentes pedidos dos fãs, na última segunda-feira (25) foi aberta uma sessão única de cinema em várias cidades do mundo (logo após seu lançamento durante a edição deste ano da San Diego Comic-Con). Eu tive a oportunidade de assistir a uma dessas sessões aqui em Natal e contarei minhas impressões sobre esta produção nas próximas linhas.

O prólogo

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Logo de cara o filme trata de falar com você, espectador. Na voz da própria Barbara Gordon, o filme explica que sabe que não seria bem assim que você esperava que a história começaria, como quem pedisse licença para tocar em um outro assunto antes do assunto principal. Como prometido pelos produtores, este prólogo é justamente o conteúdo extra, criado para suprir o fato de que a obra original – uma HQ de volume único com pouco mais de 50 páginas – renderia pouco material ao ser transposto para essa mídia. Em teoria é uma ideia interessante, mas ao meu ver infelizmente sua execução foi um bocado falha.

Ao longo dos primeiros 30 minutos da película acompanhamos a Batgirl clássica em mais uma de suas missões ao lado do Homem-Morcego. Ao enfrentar mais um bandido que estava dando dor de cabeça à polícia de Gotham, Barbara acaba tendendo a se envolver com ele e Batman, preocupado com ela e percebendo nisso um risco, ordena que ela se afaste da missão para trabalhar sozinho. Após o Homem-Morcego surpreendê-la ignorando sua ordem, Barbara acaba discutindo e até lutando com Batman e no final os dois transam. No final do prólogo, após Barbara capturar e espancar o bandido quase até a morte, ela percebe que estava indo longe demais (como Batman sempre evitou ir) e resolve abandonar o manto de Batgirl, encerrando sua carreira de super-heroína.

A impressão que eu tive é que isoladamente essa nova história é até boa, mas para o que se propõe ela parece bastante deslocada. Segundo o produtor Bruce Timm, a ideia era direcionar o foco do filme à Batgirl e torná-la mais importante, fazendo com que nós nos importemos mais com ela. Mas ao assistirmos ao restante do filme notamos que esse prólogo não faz a menor diferença para o restante do filme.

É como se literalmente nos contassem duas histórias diferentes e totalmente desconexas entre si dentro de uma mesma produção.

A piada

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Prosseguindo com o filme, a parte que realmente interessa cumpre completamente o que se espera de uma produção típica da Warner Animation. O enredo principal de A Piada Mortal é quase idêntico ao que vemos no gibi: guardadas as devidas proporções midiáticas e salvo a alteração de uma linha ou outra de diálogo, é como se você realmente estivesse folheando e relendo as páginas da obra escrita por Alan Moore e desenhada (e agora também colorida) por Brian Bolland. Se você preza pela fidelidade à obra original, seja nas produções da Warner/DC, seja em qualquer outra produção, vai ficar bem feliz com o que verá nesse filme.

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Batman interrogando prostitutas na HQ

Aliás, uma dessas pequenas mudanças me incomodou um bocado: em um dado momento próximo do final,  enquanto procura onde o Coringa mantém o comissário Gordon cativo, Batman resolve interrogar bandidos, marginais e outros informantes conhecidos por ele e no processo encontra algumas prostitutas. Ele então resolve interrogá-las e elas respondem que “sempre que o Coringa escapa do Arkham ele as procura, mas que dessa vez ele não fez isso”. O curioso é que, apesar de essa cena também existir na HQ, lá esse diálogo não existe e tal cena se resume a um único quadrinho na página 29, sem uma linha de diálogo sequer!

Alterar esta passagem do enredo me soou bem estranha, como se os produtores quisessem induzir o espectador a um posicionamento sobre o polêmico, famigerado e inconclusivo acontecimento entre o Coringa e a Barbara. E me soou mais estranho ainda – contraditório até – quando li a declaração de Bruce Timm, que afirmou com todas as letras que NÃO, o Coringa não estuprou Barbara Gordon!

Inclusive, se me permitem o comentário pessoal, eu sempre interpretei dessa forma desde que li a HQ pela primeira vez: o Coringa é – ou costumava ser – um personagem assexual (pra quem lembrou da Arlequina ao ler isso, vale lembrar que ela ainda não existia na época de A Piada Mortal, que é de 1988. Ela surgiu no clássico desenho animado do Batman somente quatro anos depois, em 1992). Pra ele só o que importa é a loucura e nada mais e ele estaria disposto a fazer qualquer coisa pra enaltecer a loucura e provocá-la nas pessoas ao seu redor. Então eu sempre entendi que o Coringa não estuprou a Barbara, mas fez o necessário para que o comissário Gordon acreditasse que sim, na tentativa de quebrar-lhe a sanidade e provar sua doentia teoria.

Mas, sei lá, de repente os produtores do filme não tiveram mesmo essa intenção e eu só tô procurando pelo em ovo.

“Sabe, isso me lembrou uma piada…”

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Apesar desses poréns, o saldo foi bem positivo pra mim. Eu percebi um esforço legítimo por parte dos produtores de entregar um produto de qualidade nessa nova adaptação. Eu achei até um bocado interessante a tentativa de incrementar o enredo original com esse prólogo da Batgirl e entendo porque a Warner sentiu essa necessidade de acrescentar esse novo arco narrativo. Além disso, as pouquíssimas alterações na trama principal – inclusive essa que eu achei mais polêmica – não diminuem nem um pouco o valor deste grande filme.

Assim sendo, fica a minha recomendação: se você também gosta da obra original, vai fundo e compra o DVD ou o Blu-Ray, mas faça isso com a mente aberta. E se por acaso você também teve a chance de assisti-lo no cinema, nos conte o que achou nos comentários!


128315773_1GGDVD – Batman: A Piada Mortal

Duração: 86 minutos

Gravadora: Warner

Idiomas (áudio/legendas): Inglês, Português, Espanhol

Idiomas (legendas): Inglês, Português, Espanhol

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61RWarZO+kL._SX329_BO1,204,203,200_Batman – A Piada Mortal [Edição Especial de Luxo]

Roteiro: Alan Moore

Arte: Brian Bolland

Editora: Panini

Páginas: 82

Editora: Panini

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Analista de Sistemas, desenvolvedor e webdesigner freelancer. Sou viciado em videogames, amo literatura, tô quase voltando a desenhar e os ensinamentos de Ben Parker formaram o meu caráter.

2 COMENTÁRIOS

  1. Achei o filme bem conexo. Totalmente fiel, porém só me perdi um pouco naquela cena pós crédito que pra mim não fez muito sentido. Também vale mencionar para os mais apaixonados por parte técnica que é *escrito* pelo mestre Brian Azzarello e como toda animação da DC/Warner tem o Jay Oliva.

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