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Apesar do Batman passar grande parte da vida salvando Gotham City, é impossível não pensar no quanto de culpa o próprio homem morcego tem na criação da sua galeria de vilões. Tirando os vilões mafiosos, todos os outros apresentam distúrbios psicológicos, sendo por isso sempre trancafiados no Asilo Arkham em vez de condenados à morte. Não são raras as histórias que trazem à tona a questão de que o Batman, com sua própria loucura, acaba atraindo todos os maníacos para a cidade. O interessante é que o Coringa, o mais insano de todos, é quem sempre percebe a loucura contida no morcego. No clássico A Piada Mortal, os dois adversários chegam a terminar a história rindo de uma piada, como dois velhos amigos. Em Batman: Asilo Arkham, mais uma vez é o Coringa quem tenta mostrar ao Batman que ele é louco como todos os outros ali trancafiados.

Escrita por Grant Morrison, a história começa com todos os maníacos do Arkham tomando conta da instituição e fazendo diversos reféns. Para que eles sejam libertados, o Coringa exige apenas que Batman aceite passar um tempo dentro do manicômio, que é o verdadeiro lar dele. Após escutar pelo telefone uma das reféns sendo torturada, o homem morcego não perde tempo e vai de encontro ao vilão. Ao chegar lá, alguns psiquiatras se recusam a deixar o local, mesmo depois que o Coringa os libertou. Caminhando pelo Arkham, Batman percebe que a loucura ali não vem apenas dos vilões, mas também dos médicos, que conseguem deixar Harvey Dent pior do que ele já era. E não demora para que o próprio vigilante comece a ser analisado por uma das psiquiatras, para delírio do Coringa.

O Batman apresentado na história é um personagem bem mais humano e claramente desconfortável com toda a situação criada, perdendo a cabeça com o Coringa muito facilmente. O Príncipe Palhaço do Crime, por sua vez, está mais à vontade do que nunca em seu habitat natural, chegando a dar um tapa na bunda do Batman. Sem contar que o visual dele conta com sapatos de salto alto e unhas compridas. Porém, mais do que mostrar um simples confronto entre Batman e Coringa, Morrison apresenta a história de Amadeus Arkham, fundador do asilo para os criminalmente insanos. Com isso, ele mostra que, muito mais do que um simples local onde ficam os malucos, talvez o próprio asilo seja a origem de toda a loucura. É quase como se o Arkham fosse uma entidade corrompida.

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O problema da história é que Grant Morrison é um roteirista que viaja demais nos próprios conhecimentos e muitas referências só ficam claras para quem possui os mesmos conhecimentos. Se já é complicado quando ele usa referências de histórias que foram publicadas há mais de 30 anos (como aconteceu na fase mais recente dele em Batman), imagine ao usar coisas como cartas de tarô. Claro que os fãs do escocês e de misticismo vão adorar, mas sinceramente não é a minha praia. Muitas vezes a impressão que eu tenho do Morrison é de que ele usa os quadrinhos apenas para mostrar o quanto de conhecimento de ocultismo/quadrinhos antigos ele possui. Felizmente a edição definitiva lançada pela Panini possui um apêndice com o roteiro original e todas as notas de referência utilizadas.

Melhor do que a história em si é a arte de Dave McKean, mais conhecido por ser o responsável pelas capas da série Sandman. Com sua arte pintada, ele consegue apresentar ao leitor um dos Coringas mais assustadores que já apareceram nos quadrinhos. Pelo menos visualmente, já que nessa época ele ainda não era louco o suficiente para arrancar o próprio rosto. A cena em que Batman, tentando sair de um estado de paranóia induzido pelo Coringa, atravessa a própria mão com um caco de vidro também é belíssima, mostrando cada gota de sangue caindo e formando uma poça vermelha. E é impossível não se sentir pelo menos um pouco incomodado com a cena de uma cabeça dentro de uma casa de bonecas. Sem contar que o Arkham realmente parece um hospício, com os internos perambulando pelos corredores muitas vezes apenas falando coisas sem sentido.

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PS: O letreiramento da nova versão da Panini ficou muito ruim nas falas do Coringa. A fonte vermelha e muito fina em algumas cenas dificultou bastante a leitura. Pelo que eu vi na internet, a versão de 1990 da Abril era muito mais fiel ao original e mais fácil de ler.

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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