Olá meus tchutchucos lindos!

Conforme vocês já devem ter percebido, os temas que abordo em meus textos nunca são muito convencionais salvo certas exceções. A mesma coisa vale para filmes, juro que tentarei sair do gênero terror e resenhar algum filme mais light, mas não vai ser hoje que isso acontecerá.

Certa noite através do Facebook, Thiago Chaves, esse querido responsável pelas artes das vitrines na MOB, chegou para mim me perguntando se eu já havia assistido um filme chamado Martyrs. Neguei e ele disse “Cara assiste, é muito bom”. Eu já havia ouvido falar a respeito da película francesa, li alguns relatos de pessoas que passaram mal vendo ou que não conseguiram terminar de assistir.

Tá aí, desafio aceito.

Já vi um filme sérvio e sobrevivi, não deve ser pior do que isso.

Martyrs conta a história de Lucy e Anna, duas garotas que sofreram abusos quando crianças e se conheceram num orfanato. Só que calma, esse filme não pesa pra parte dramática dos traumas emocionais, já começa com pé na porta e soco na cara. Sangue nos olhos, assim por dizer.

A primeira cena de Martyrs nos deparamos com Lucy ainda jovem e toda ensanguentada, suja, desnutrida e machucada. A garota corre pelas ruas desesperada e depois o filme segue para um breve momento de convivência entre a garota e Anna, até que nos deparamos com “A mulher pelada”.

O tempo passa e Lucy mata uma família de quatro pessoas com uma shotgun em plena manhã e sem motivo aparente. Após ter feito isso, liga para Anna clamando que finalmente se vingara de quem fizera todas aquelas coisas com ela no passado e pede ajuda para enterrar os corpos. A amiga vai ao seu auxílio mesmo achando que a outra cometera um engano.

Enquanto mata a família, Lucy é perseguida pela “mulher pelada”. Uma figura desnutrida, coberta em cicatrizes, feia, suja e cheia de sangue seco. As duas lutam mas o motivo por trás disso só é revelado lá pro fim.

Ambas são almas atormentadas pelo que aconteceu a elas no passado. E enquanto Lucy representa a insanidade, a loucura, o ódio, instabilidade emocional e o desejo por vingança, Anna é a sanidade. Nós vemos o filme pelos olhos de Anna, é quase como em Ensaio sobre a Cegueira, o livro, não o filme.

Um monte de coisa começa a acontecer e o expectador, assim como a mulher, não entende nada até que um detalhe é exposto e isso leva a um desenrolar novo. Eu particularmente não sei como me sentir a respeito desse desenvolvimento de trama, talvez se encurtassem algumas cenas esse argumento ficaria melhor.

Uma coisa que eu achei interessante sobre Martyrs foi a maquiagem. Se você assistir o filme depois de ler esse texto peço que repare nos efeitos visuais usados. Quem já viu pode falar “Ah mas a maquiagem tá forçada, nem parece pele isso aí

Vale relembrar que quando uma pessoa sofre agressões diariamente, socos, pontapés ou cortes, fica com a pele cheia de cicatrizes ou encouraçada. O tecido vai ficando mais duro e resistente para não ser rompido com mais facilidade. O mesmo vale para os calos nas mãos ou nos pés, com a rigidez da pele, fica mais difícil da pessoa sentir dor.

Essa mesma definição de pele de couraça foi muito usada no livro de Marques de Sade, 120 dias de Sodoma, só que no caso, era a pele da bunda. Se você tiver estômago eu recomendo que você leia, mas aviso, você vai passar mal de alguma maneira lendo. Eu tive náusea e aflições, principalmente no terceiro e quarto círculo.

Não dá para contar muito mais do filme sem dar spoilers, o que é uma pena porque eu gostaria muito de questionar um argumento do filme, mas se eu o fizer, entregarei a cereja do bolo do roteiro para vocês.

Martyrs é um filme de terror europeu feito em 2008, por ser da França, já aviso que não esperem um dos blockbusters americanos com meninas oxigenadas e burras dando uns amassos com cabeças de lobo empalhadas ou sangue jorrando para todos os lados. Existe o gore em Martyrs, sim existe, no entanto, ele foi bem usado.

Não chega ao ponto Tarantino, mesmo porque ele faz isso de propósito, e o diretor do filme, Pascal Laugier, soube como usar o suspense a seu favor. Uma película de terror não precisa de galões de sangue a todo o momento nem de sustos a cada minuto ímpar. Se você souber como colocar um jumpscare no filme, vai se pegar xingando o computador, como aconteceu comigo.

Eu não posso explicar direito o motivo pelo qual o filme se chama Martyrs, tudo o que posso dizer é que essa palavra é de origem grega e significa “testemunha”.

Junto de REC (Espanha,2007) e Let The Right One In (Suécia, 2008), mais uma vez é nítido que os Estados Unidos ainda tem muito o que aprender com a Europa sobre como fazer um filme de terror que preste. Não estou desmerecendo. A terra do Tio Obama tem os seus clássicos como A profecia e O exorcista. Mas esses filmes datam da década de 70.

O que eu critico é: O que houve com a qualidade dos filmes de terror norte americanos?

Vimos ideias criativas como Jogos mortais, mas ficou batido, todo mundo começou a fazer igual. De novo, não estou desmerecendo, realmente foi uma coisa que ninguém estava esperando e fez de Jigsaw um dos assassinos mais lembrados da nossa geração. Vimos também Atividade Paranormal, mas sou suspeita para falar porque tenho medo de nightvision.

Nesse rolo todo nós somos testemunhas de que a Europa e o Japão/Coréia deveriam ter muito mais reconhecimento pelos filmes de terror por lá produzidos. E sim, se você estava suspeitando de algo eu confirmo, Martyrs vai ganhar um remake americano e será dirigido pelo diretor de O último exorcismo. Lá vem mais dor de cabeça.

Em suma, assista Martyrs. Se você se impressiona muito fácil, não recomendaria muito, especialmente uma das cenas finais. Mas se você foi como eu, bateu no peito e disse “Desafio aceito”, vá em frente. Não é o filme mais chocante em aspectos visuais que já vi, mas ele deu uma incomodada legal.

Título: Martyrs

Diretor: Pascal Laugie

Duração: 94 minutos

Nota: 8

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Jornalista. Fã de gore, terror e todas as bizarrices da internet. O pessoal daqui diz que eu sou um Shinigami.

2 COMENTÁRIOS

  1. Martyrs realmente incomoda. Não apenas pelo visual, mas pela história, pelo que transmite.
    É daqueles filmes que fica coçando lá fundo, mesmo depois de um tempo.
    Não tem um para quem indico que não fica incomodado.
    Vale a pena ver e tirar suas próprias conclusões.
    E Bia, parabéns por mais um belo texto e indicação.

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