E então liberaram o primeiro trailer do novo filme do Quarteto Fantástico pela Fox, um reboot nesta franquia cinematográfica. Nesta pequena amostra, nota-se que não parece se tratar de um filme colorido do Quarteto e sim um filme  soturno de ficção científica que leva o nome do Quarteto Fantástico – o que eu achei particularmente muito bom, embora entenda a insatisfação dos fãs da família fantástica. Mas não é isso que quero discutir aqui.

Muitas tem sido as reclamações em cima do filme, mas nenhuma chama mais atenção e tem sido mais intensa do que as críticas negativas contra a mudança de etnia do personagem Johnny Storm, o Tocha Humana.

flameonmichael
MICHAEL B. JORDAN COMO JOHNNY STORM, O TOCHA HUMANA

 

A estreia de Johnny Storm nos quadrinhos deu-se no gibi Fantastic Four #1, em 1961, numa época em que as principais figuras de destaque dos quadrinhos eram todos brancos, heterossexuais, cisgêneros. Pouquíssimas mulheres. Nenhuma pessoa negra. Nenhuma.

Os críticos mais ferrenhos alardeiam que se deve respeitar a obra, e eu posso concordar. No entanto, nós, pessoas negras, fomos respeitadas em nossa representatividade? Num comentário de um site de quadrinhos, um rapaz cujo rosto desconheço, e que se diz negro, opinou que se “querem abrir um sistema de cotas para negros em filmes de Hollywood, então que criem personagens negros interessantes e parem de descaracterizar os personagens como eles são nos quadrinhos”; é claro, ganhou vários feedbacks positivos – afinal, se o negro falou contra essa estúpida política de inclusão, então tá falado, nossas críticas brancas são legítimas. Bacana.

O primeiro “personagem negro interessante” da Marvel estreou nos quadrinhos apenas em 1966, no gibi Fantastic Four #52, para atender a demanda cada vez maior de leitores negros. Um único personagem negro de destaque é mesmo suficiente para atender o imenso contingente de pessoas negras do mundo? O punhado miúdo de heróis negros hoje existentes nas principais editoras são mesmo suficientes?

E, acima de tudo: por que incomoda tanto quando o personagem branco se torna negro?

MILES MORALES COMO ULTIMATE HOMEM ARANHA. INCOMODA TANTO ASSIM VOCÊ?
MILES MORALES COMO ULTIMATE HOMEM ARANHA. INCOMODA TANTO ASSIM VOCÊ?

 

Ao longo dos anos, nos quadrinhos, as histórias sofreram diversas mudanças nas origens e no status quo de seus personagens, de retconsreboots, de heróis que morrem e passam o manto para seus sucessores, universos alternativos com origens revisitadas, adaptações cinematográficas que diferem bastante do que aconteceu originalmente nos quadrinhos.

Mas por que incomoda mais Capitão América vivido pelo Sam Wilson, negro, do que o Capitão América vivido pelo caucasiano Bucky Barnes? Por que o Batman loiro e psicopata que substituiu Bruce Wayne nos anos 90 não incomodou tanto quanto o negro latino Miles Morales como novo Homem Aranha num universo alternativo? Por que, de todas as diferenças entre os quadrinhos e a vindoura adaptação cinematográfica do Quarteto Fantástico, a que o pessoal mais bate na tecla é por conta do negro Michael B. Jordan interpretando o Tocha Humana?

Por que será?

Essa mudança de raça não muda em nada a trama. Não influencia em nada a essência de família que a franquia carrega. Então, se não muda nada, então por que mudar? Pra que ser “politicamente correto”?

Porque. Não tem. Negro. Em lugar. Algum.

Por que será que um monte de crianças pretinhas vibraram quando acordaram e descobriram que o Capitão América agora era negro? Por que um monte de mocinhas pretas leitoras de quadrinhos até hoje se espelham na personagem Tempestade dos X-Men? Por que vários rapazes adoram tanto o Pantera Negro super-inteligente e lutador e soberano da nação mais avançada tecnologicamente – e espiritualmente – do mundo?

tumblr_n99asc5tte1s5zf6fo1_1280

 

Porque. A. Maldita. Representatividade. Importa. SIM.

“Ah, mas hoje tem um monte de personagens negros que…” Tá. “Um monte”. E quantos desses são líderes de grandes equipes? Quantos desses são líderes de alguma equipe? Quantos realmente se destacam? Quantos são realmente relevantes nas histórias?

“Ah, e se mudassem seu personagem negro pra branco?” Sério? Porque já não temos brancos suficientes, né?

Em tempo: se escalaram o Michael Jordan pra viver o Tocha Humana, bem que podiam aproveitar e contratar uma atriz negra para viver sua irmã Sue Storm. Porque, se o homem negro quase não aparece nos quadrinhos, a mulher negra então praticamente não existe. Bem bacana mesmo.

Comente pelo Facebook

Escritor. A vida imita a ficção. Autor de livros afro-futuristas e afro-fantásticos. Simbolismos curam a alma. Nossa pele é maravilhosa. Obrigado.

ARTIGOS SEMELHANTES

11 COMENTÁRIOS

  1. Racismo não presta. Seja lá onde, quando ou como for.

    Eu já fiquei puto quando criticaram a aparição de John Boyega como stormtrooper no teaser trailer de Star Wars: O Despertar da Força. Inclusive uns imbecis que se dizem fãs de Star Wars. Se fossem fãs mesmo, não reclamariam da aparição de John. Afinal, Star Wars sempre foi plural. É a franquia onde já trabalharam James Earl Jones (a voz de Darth Vader), Billy Dee Williams, Samuel L. Jackson… E agora terá Lupita Nyong’o, que se juntará a Natalie Portman e a Alec Guinness na galeria dos atores e atrizes de Star Wars que já ganharam Oscar, ainda que fora da franquia.

    Quer ver como toda essa implicância com o Tocha Humana negro é tão somente racismo? Os mesmos que implicam com Michael B. Jordan sob alegação de a Fox “ter mudado a etnia original do personagem” não reclamaram quando a mesma Fox colocou Jessica Alba com lentes de contato e peruca loura no papel da Mulher Invisível. Na verdade, ninguém deveria denegrir nem negros nem hispânicos. E a Fox deveria ter deixado a Jessica ao natural.

    A propósito: há anos a Marvel acertou ao mudar a etnia do Nick Fury para negro. Muito pela pressão dos defensores dos direitos civis, mas valeu. Acertou tanto que na época Samuel L. Jackson (olha ele de novo!) imediatamente se reconheceu tão logo viu o novo visual do personagem nos quadrinhos. Esse negócio de se identificar com personagens de quadrinhos é sério. Hoje o ator exerce muito bem o papel de Nick Fury nos cinemas. Embora os puristas dos quadrinhos reclamem que o personagem no cinema não tem a cabeça tão esquentada quanto nos quadrinhos, mas isso é outra história…

  2. Marcelo, a escolha de “embranquecer” uma latina pra fazer a Sue é sim alvo de críticas, até hoje. Acontece que os filmes anteriores do FF são tão cheios de falhas que essa acaba sendo só mais uma no meio.

  3. “Por que o Batman loiro e psicopata que substituiu Bruce Wayne nos anos 90 não incomodou tanto quanto o negro latino Miles Morales como novo Homem Aranha num universo alternativo?”

    Amigo, o Batman Azrael foi duramente criticado pelos fãs do morcego na época em que assumiu o manto, a rejeição foi tanta que caiu em desgraça no próprio título e foi rejeitado pelos Robins, pela polícia, por toda Gotham e por fim pelo Batman.

    Já o Miles Morales tá sendo ovacionado pelos fãs do Aranha, tanto que os boatos dizem que será integrado ao Universo 616 após Secret Wars.

    E sobre “não reclamaram quando a mesma Fox colocou Jessica Alba com lentes de contato e peruca loura no papel da Mulher Invisível”, cê não leu a opinião do John Byrne na época da escolha da atriz, né (e nem agora, quando ele soltou os cachorros na escolha do Michael B. Jordan)?

  4. Sim, me incomodaram todas as mudanças acima… Não se muda o personagem original “nunca” aconteça o que acontecer… Isso é falta de criatividade de roteiristas, que preferem mudar drasticamente décadas de personalidade de um personagem ao criar novos que se adaptem aos gostos ou sociedade de hoje… Se vão fazer sucesso é outra coisa… E existem muitos grandes heróis negros nas HQs, como o pantera, Luke Cage, falcão negro, o lanterna John Stuart, e outros…

    • Ainda bem que esses outros personagens não são da Fox. Pantera, Luke Cage e Falcão Negro são da Marvel. Falcão Negro já apareceu no segundo filme do Cap América na Marvel. Pantera deverá aparecer no terceiro filme. Luke Cage aparecerá nas séries transmitidas pelo Netflix. John Stuart é da Warner.

      Se bem que Marvel e Warner já fizeram suas lambanças. Vide Mandarim, Lanterna Verde, Mulher-Gato, o Batman & Robin do Schumacher…

  5. Eu sou negra e cresci lendo as histórias em quandrinhos da Marvel e discordo, sim, do tocha humana negro, que, originalmente é irmão de Susan Storm. Que absurdo esta mudança! Existem verdadeiros super heróis negros nos quadrinhos, a exemplo de pantera negra, que é o que possui maior fortuna dentre os heróis, além de ser muito poderoso, ora bolas! Os verdadeiros e autênticos fãs do Universo Marvel, acredito, não concordarem com essas adpatações cinematográfias. Tenho dito!

  6. Eu me incomodo sim e não verei o filme… Como ele é irmão dela e ela é loira? São irmãos um negro e uma loira? Como isso é possível geneticamente?

  7. Olha, não é por preconceito, mas eles fazem os filmes imitando os personagens dos desenhos, então ele não deveria ser negro, mas não por racismo, mas sim por fidelidade aos quadrinhos e desenhos, o tocha humana sempre foi branco desde a década de 60, então porque mudar logo agora?.

  8. Sou negro e posso falar, não se trata de racismo. Quem é fã de quadrinhos, quer ver como tal nas telas, assim como nos gibis. Existem várias maneiras de combater o racismo, mas essa foi péssima. Só acaba gerando mais preconceito na sociedade mundial. Afinal de contas e visto pelo mundo inteiro.
    Saiu em 2015, e só vi hoje. Porque quando vi que o tocha humana era negro, e que o filme ia contar sobre a mesma história da formação. Desanimei de ver….. E como se tivesse matado o tocha humana.
    Precisamos de mais heróis negros nos quadrinhos ?
    Sim isso é verdade, mas esse não é o caminho, descaracterizado um personagem já existente à décadas. Adoro Stan Lee, mas acho que o velhote, não está bom da cabeça, ter consentido uma coisa dessas. Rss
    Em fim todos filmes do quarteto tinha tudo pra ser bom, mas são péssimos. A amarração da história não é Boa.
    Os direitos deviam voltar pra Marvel, a fox está acabando com esses lendários heróis.

Deixe uma resposta