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Se você, como Eu, viu a capa desse gibi tijolão e achou se tratar de mais uma grandiosa obra autobiográfica envolvendo fantasias juvenis, mundos escapistas e fantásticos, além de diversão – com um crescimento dramático profundo apresentado aos poucos, sinto informar que essa ideia está errada. A imagem da capa me remeteu a algo na linha Retalhos, Fun Home, e por aí vai, mas temos algo tão bem desenvolvido quanto, porém um pouco mais deprê.

Desavisadamente, estamos diante de outra coisa aqui, uma espécie de mitologia do interior do Canadá, essencialmente rural, onde pessoas mal se comunicam, onde o hóquei é uma identidade nacional e todos estão fadados ao esquecimento. O autor Jeff Lemire criou uma identidade para uma região geralmente esquecida do país e nos colocou no meio dela sem escalas.

Condado de Essex (Editora Mino) é um longo e lento painel de personagens que desfilam nos limites da infelicidade. Não apenas suas vidas, quase sempre perdidas diante de máquinas de destruir humanos como cidades e empregos de merda, mas também suas memórias, esmigalhadas rumo ao completo vazio.

Temos três histórias paralelas que formam uma árvore de acontecimentos, uma teia de personagens que esbarram entre si, têm suas vidas influenciadas uns pelos outros e, em muitos casos, buscam alguma redenção. Esqueça a beleza escapista da capa (não canso de falar da capa), tudo ruma para um final recheado de tristeza aqui. As três foram publicadas em volumes separados, que conversam entre si com raízes (como, mais uma vez, a capa nos adianta).

A primeira história – Contos da Fazenda – é a mais simples de todas e envolve a relação entre o pequeno Lester e seu tio Ken em uma fazenda, como o título anuncia. Percebemos em poucas páginas que algo está errado, aparentemente temos uma pedra entre os dois e por mais que Ken se esforce para ser amigável com o garoto, as coisas não vão bem. Temos também Jimmy, um atendente de loja de conveniência que foi jogador de hóquei no passado e parece ter diversos tipos de trauma. Por algum motivo, o tio Ken não gosta da lenta aproximação entre Lester e Jimmy.

De cara, esse primeiro livro nos diz bastante sobre distanciamento. Os desenhos de Jeff não são bons à primeira vista, com rostos parecidos entre si e linhas retorcidas. Mas logo você não imaginará outra forma de Condado de Essex ser contado. Até porque Lemire propositalmente logo se solta e começa a pensar em quadros mais complexos, em zooms que conectam os personagens em suas realidades cada vez mais entrópicas. Poucas artes representam melhor a solidão que a empregada por Lemire.

A relação entre Ken e Jimmy é dura e complexa. Há uma quantidade mínima de diálogos e todos eles parecem simplesmente jogados, automatizados, ali unicamente para existir alguma relação entre os dois. Não demora e estamos um tanto pra baixo pelas expressões de tristeza e de “quase consegui” do tio, que tenta criar o moleque que possui uma imaginação e tanto e gosta de histórias e fantasias de heróis.

A grande questão que gira nesse início é uma certa inevitabilidade na separação entre os dois, um distanciamento que jamais será preenchido. Quando você ler a história completa, essa separação entre os dois não parece fazer tanto sentido, mas felizmente Lemire tinha planos grandiosos para a obra.

A segunda e maior parte – Histórias de Fantasmas – é como uma resina que une tudo. Temos o conto de dois irmãos que jogam hóquei e circunstâncias extraordinárias que acabam separando os dois. Um simples detalhe na vida deles – que pode parecer clichê, mas a forma como Lemire aborda e amarra tudo irretocável – que arrasta a vida de diversas pessoas da família para um buraco emocional onde o vazio completo reina.

A história é longa e, por vezes, um tanto chata. Algumas páginas são o ponto baixo da trilogia, mas outras são o ponto alto. Estamos diante do cerne do gibi, o vulcão que entra em erupção, e demonstra justamente como a quietude da vida rural em quase nada se difere de estar sozinho e engolido numa cidade grande.

É esse tipo de violência emocional que os personagens sentem na pele, e aos poucos é nossa vez de sentir também. O autor manja muito de nos tornar observadores indefesos e logo quebrados de uma realidade que, com um pouco de esforço, pode ser a nossa. Tudo está fadado à dissolução completa.

A terceira história – Enfermeira do Interior – é um quase suave final após tanta quebradeira, ainda que guarde sua parcela de tristeza. Conta o drama quase paralelo de Dona Q, uma enfermeira de idosos que cuida de um personagem que já conhecemos anteriormente. Aqui somos capazes de presenciar como o drama central da história consegue afetar personagens que circulam ao redor dele, como satélites atraídos por um campo gravitacional inescapável.

Dona Q acha que os idosos precisam dela, mas talvez ela precise mais dos idosos. Nesse ponto, começamos a nos cansar das contínuas desgraças de Condado de Essex, mesmo que salpicadas de bom humor. Entendam: os personagens quase sempre são boa gente, mas apenas nós leitores conseguimos enxergar isso, porque no geral eles se odeiam. Nos sentimos aquelas que pessoas que têm amigos que não se bicam: gostam dos dois, mas convivem com espetadas dos dois lados e até acusações. Observe como Dona Q é maltratada em sua própria casa, como que expulsa de lá.

É nesse espaço sufocante que Lemire nos coloca, uma área de difícil locomoção e respiração, dada a densidade emocional da história. É uma jornada angustiante, que ainda exige um pouco do leitor que deve montar mentalmente as idas e vindas da família descrita nos três contos de forma não-linear. Ao menos, no final temos uma árvore genealógica pra facilitar as coisas.

O último conto é separado dos demais e narra a história de um clube de boxe do condado. Felizmente dá para tomar um pouco de ar aqui porque não temos tanta desgraceira empilhada como nas histórias anteriores. Rimos mais e gostamos do que acontece sem tomarmos espinhadas direto no coração.

Condado de Essex é uma obra de qualidade ímpar, construída com todo cuidado e criada especialmente para nos afetar emocionalmente. As histórias parecem pequenas crônicas tiradas de páginas pouco lidas do jornal, mas Jeff Lemire torna tudo grandioso com sua não-linearidade e personagens legais que geralmente se odeiam. Não espere nada muito pra cima aqui, embora ele saiba contextualizar totalmente sobre cada rumo de seus personagens. Um grande gibi que irá te esmagar com um potente choque de realidade.

Condado de Essex
Autor: Jeff Lemire
Editora: Mino (2017)
Páginas: 512
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