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Quando você pensa em narrativa muda, creio que a primeira coisa que surge em sua mente são os filmes da década de 20. Pela falta de tecnologia da época, os filmes não continham diálogos, alguns inseriam legendas para melhor compreensão da história, mas o espetáculo não se dava por isso e sim pela narrativa envolvente mesclada com as atuações brilhantes. Charlie Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd são alguns dos nomes que nasceram neste tipo de cinema e aos poucos foram ganhando o respeito e a admiração do público. Com o avanço da tecnologia, o cinema foi se reinventando e aos poucos esse estilo foi sendo descontinuado, mas até hoje ele é lembrado pela complexidade e competência em contar uma história com poucos recursos. Por mais que os filmes sejam mudos, eles conseguem contar com maestria tramas complexas ou apenas uma comedia descompromissada. Até hoje o cinema mudo vem inspirando diretores modernos por conta de suas qualidades, nomes como Wes Anderson, Edgar Wright se inspiram bastante nos filmes dessa época e podemos ver nitidamente em seus trabalhos.

Tempos modernos de Charlie Chaplin.

O quadrinho se provou uma maneira única de contar histórias, com a mistura de texto e desenhos muitas são as possibilidades para desenvolver uma trama. Diferente dos livros, algumas obras são impossíveis de serem adaptadas para outros meios, seja filmes ou séries de tv. Histórias como Asterios Polyp, escrita e desenhada pelo David Mazzucchelli, usam todos os recursos que a narrativa gráfica pode oferecer e dificilmente seria possível uma adaptação.


Indo na contra-mão do cinema, quadrinhos mudos resolvem abandonar os diálogos para contar uma historia apoiada somente na narrativa gráfica. Os quadrinhos mudos tem seu início em tiras de jornais, em poucos quadros era contada uma história e tudo ficava por conta da narrativa do autor. Não necessariamente todas tiras eram mudas, os personagens eram desenvolvidos em outras tiras e as sem diálogo eram mais naturais para o leitor por causa do conhecimento prévio. Produzir quadrinhos não é fácil, mesmo com os balões de fala ainda é um trabalho árduo e no final das contas o resultado final tem a chance de ficar ruim. Contar uma história completamente muda é ainda mais difícil e exige um total entendimento do autor de como funciona a narrativa, a fluidez e o desenvolvimento de personagens dentro de um quadrinho.

O mercado brasileiro tem recebido uma porção de quadrinhos com essa temática, seja independente como Pétalas de Gustavo Borges ou de autores grandes como o Jason que teve seu trabalho Sshhhh! publicado pela Editora Mino. Mas, não estou pra aqui pra falar de nenhum deles e sim do mais novo lançamento da Editora Pipoca & Nanquim, Um Pedaço de Madeira e Aço escrito e roteirizado por Christophe Chabouté. O autor foi revelado no Brasil pela publicação de Moby Dick (que está concorrendo ao prêmio Eisner de melhor adaptação de outra mídia e melhor roteirista/desenhista) e desde então a editora continua trazendo suas obras para o mercado brasileiro. A história foi originalmente publicada na França com o nome de Un peu de bois et d’acier pela editora Vents D’Ouest.


Chabouté resolve contar não só uma, mas várias histórias. As interações, sejam longas ou curtas, acontecem em torno de um um banco de praça e tudo isso é narrado por suas rotinas prazerosas ou penosas. O mais interessante dessa história é que o personagem principal não é uma pessoa e sim um objeto inanimado e imóvel que tem muito o que falar, por incrível que pareça. Se contar uma história sem balões com personagens convencionais já é complicada, imagina quando você decide contar a história de um banco que é fixo no chão, que te impossibilita a movimentação de câmera e ainda não tem emoções. Pois bem, Chabouté consegue fazer algo único aqui.

Em uma entrevista ao canal Comix Zone, é perguntado ao autor sobre o que o quadrinho se tratava, ele respondeu:

É uma espécie de ponto central, em torno do qual todo mundo gravita (…) É uma especie de desfile, uma especie de baile. Um Palco por onde todos passam, e cada um interpreta o seu papel.

Como o autor disse, realmente o quadrinho parece uma peça de teatro onde o palco é o banco e os personagens são os atores que não sabem que estão sendo vigiados, como acontece no filme O Show de Truman. Você vai conhecendo aos poucos cada um dos personagens e com poucos fragmentos de tempo. Quando um personagem não está em cena, fica na interpretação do leitor o que eles estão fazendo. Você acompanha suas vidas, anseios, evoluções e frustrações. O mais fascinante disso tudo é que nada disso é falado, ou melhor, não é verbalizado. Os personagens conseguem falar por meio de olhares, gestos ou ações que, talvez, para o personagem não significa nada, mas para o leitor diz muita coisa. Vemos um skatista começando a praticar, vemos a rotina de um trabalhador que está visivelmente insatisfeito com o seu trabalho e está vivendo no piloto automático, um casal de velhinhos aproveitando a vida, um cachorrinho de rua, um morador de rua que usa o banco como cama para dormir e isso são só alguns deles.

Por abordar rotinas, o quadrinho é extremamente humano e sensível. Muitas das vezes você pode ter passado pelos mesmos momentos ou simplesmente se compadece por aquelas pessoas. Um dos aspectos explorados com maestria é a passagem de tempo. Aqui não tem indicadores e o autor não faz questão de deixar explícito quanto tempo passou. Ele demonstra de forma sútil na passagem das estações, no cair das folhas da árvore ou no envelhecimento dos personagens. O que ajuda bastante na narrativa é o traço preto e branco, ambas cores tem uma importância no desenrolar da história. Algumas páginas são completamente brancas e o leitor pode estranhar achando que sua edição está com defeito. Mas o autor fez isso intencionalmente para mostrar uma passagem de tempo mais acentuada e usa apenas uma página em branco para fazer isso. Para mostrar a noite ele inverte o padrão natural de cores e deixa as páginas com um ar negativo, usado principalmente na narrativa do morador de rua.

Algumas passagens usam textos do cotidiano para exteriorizar uma mensagem ou dizer muito sobre os personagens que estão em cena, principalmente no que diz respeito ao rapaz que conserta o banco das pichações ou coisas do tipo. Nele você vê um trabalhador que sempre está fazendo seu dever e tem que lidar com a estupidez humana no seu dia-a-dia. No final vemos ele sendo descartado por conta de um acontecimento, não posso contar mais por conta de spoilers. Isso me fez traçar um paralelo com a substituição de cargos menores por coisas mais automatizadas, visando o barateamento de mão-de-obra e exteriorizando o interesse de grandes corporações.

Por mais que eu tenha mencionado alguns personagens, o diferencial do quadrinho é que o personagem principal continua sendo o banco. Ele realmente é um palco, mas às vezes é um refúgio e um amigo nos momentos difíceis. O cachorro que eu mencionei usa o banco como banheiro e o mesmo necessita do banco para se proteger da chuva. Uma personagem descobre que está grávida e somente o banco sabe das aflições dela, nesse momento ela contou com ele para dividir essa tensão. O banco sempre está lá para te acolher de alguma maneira, mesmo se você depredar ou até mesmo se você nem sabe da existência dele, ele estará lá. Não quero soar esquisito, mas realmente é isso que acontece durante a trama, a gente passa a se importar pelos sentimentos de um banco por conta da narrativa perfeita do Chabouté.

Com um olhar único sobre a solidão, felicidade e esperança, Christophe Chabouté faz uma obra-prima na totalidade da palavra. Sua narrativa e seu roteiro devem ser estudados por todas as pessoas que querem seguir qualquer caminho envolvendo quadrinhos, isso aqui é uma aula obrigatória. Não subestime este quadrinho por não conter falas, ele não precisa delas para expressar tudo que o autor desejou para a obra, inclusive, se tivesse diálogos perderia toda sua genialidade. O acabamento da Editora Pipoca & Nanquim está primoroso e vale muito o preço de capa. Acho até que essa obra não tem preço, ela merece ser lida e relida por diversas vezes, cada vez você terá uma nova interpretação e quiçá um aprendizado.

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